Ray Bradbury nasceu em 22 de agosto de 1920, em Waukegan, nos Estados Unidos. Há cem anos. Perdeu um irmão e um tio para a gripe espanhola. Ray tornou-se escritor. Talvez algum leitor não saiba, mas seus livros vendem no Brasil como cerveja nas imediações de estádio de futebol em dia de jogo, quando torcedores iam a jogos, no verão. Só em 2019, livrarias brasileiras venderam 75 mil exemplares de sua obra mais conhecida, “Fahreinheit 451”, transformado em filme por um certo François Truffaut. Quantos autores vendem tanto livro entre nós?
Por que ele faz tanto sucesso num momento tecnológico? Talvez por detestar tecnologia e ver no mundo mediado por telas uma distopia. Em “Fahreinheit 451” as pessoas não leem, os bombeiros queimam livros e a vida é insuportável. A pandemia do coronavírus já nos coloca num mundo de Bradbury. Praticamente tudo pode ser feito de casa. Caminhar será no futuro um mero exercício de distração ou de preparação física. Como previ certa vez, as pernas serão um apêndice inútil a extrair quando, por alguma razão, inflamarem. Explicaremos aos netos para que serviam no passado e mostraremos imagens de meios de locomoção. Os engarrafamentos desparecerão com os carros e com as largas avenidas. Cirurgias serão feitas todas a distância. Andar será tão inútil e aventureiro, antes da atrofia dos membros inferiores, quanto escalar o Everest. Os patrões estarão livres do pagamento de auxílio transporte.
A literatura serve antes de tudo para nos distrair. Ray Bradbury fez ficção científica. Tanta ficção que parece ciência de verdade. Os personagens dele não tomavam cloroquina, mas poderiam. Seria uma antecipação fantástica. Os franceses chamam ficção científica de literatura justamente de antecipação. Para mim, o futuro passa pelo fim dos movimentos, atrofia das pernas, fim da escrita (tudo será imagem e áudio) e perda de interesse por combustíveis fósseis. O aquecimento global será freado pelo fim dos automóveis. Também sumirão os beijos e os abraços, salvo virtuais, sob a forma de lábios espichados tocando o nada, ou seja, a intransponibilidade da tela.
Será um mundo mágico. Ainda demora. Uns trinta anos. Viveremos 150 anos. Receberemos uma renda universal para consumir. As máquinas produzirão tudo o que precisamos. Será a sociedade do pós-trabalho. Viveremos para ver Netflix e mais um milhão de plataformas de streaming. Os roteiros de séries e filmes serão escritos por robôs. Nossa condição humana será afirmada sempre que tivermos de responder para acessar alguma coisa que não somos robôs nem produtivos. Atingiremos, enfim, a sociedade do pleno tempo livre. Nem ao supermercado iremos. A geladeira mandará a lista de compras, que será entregue sem a intervenção de seres humanos. Alcançaremos um confinamento de 98%. A margem restante se deverá aos resistentes, que levarão cachorros para passear, recusando-se a entregá-los para assistentes maquínicos especializados em passeios de cães. A vida será leve, lenta e porosa. Ela começará com a chegada da tecnologia 5G.