“MUITOS anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos. O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar com o dedo”.
Assim começa a obra-prima do colombiano Gabriel García Márquez “Cem anos de Solidão”, que está completando meio século de publicação.
As histórias envolvendo a criação desse livro genial são muitas e praticamente literárias. Fernando Vallejo, um dos mais ferrenhos críticos de Gabo, alfinetou esse começo com uma observação controvertida: "Muitos anos depois de quê, Gabito? Tem de explicar..." Eis a diferença entre o gênio e o autor comum. Não, não precisava nem podia explicar. Esse “depois” era o livro, a história, o que viria. O grande salto está já nessa primeira frase que inverte o fluxo fazendo o antes virar “depois”. Outros não teriam gostado do livro por considerá-lo mais um exemplar do barroquismo latino-americano.
Gabo teria dado uma resposta desconcertante: “Eu só queria escrever como a minha avó falava”, como a sua avó contava suas histórias fantásticas.
Escrito no México por um homem sem dinheiro, ao final de 18 meses de labuta, para pagar o aluguel, “Cem anos de solidão” foi publicado na Argentina e transformou rapidamente seu autor numa celebridade. A crítica mais ferina teria vindo de outro gênio da literatura, Jorge Luís Borges: “Cinquenta anos bastavam”. As grandes obras precisam ser construídas e construir os parâmetros da sua interpretação. Gabo deu um golpe final no esgotado realismo que ainda tentava encarcerar leitores nos limites cada vez mais estreitos do mimetismo como fotografia da existência. Mimetismo especializado em revelar pensamentos de personagens sem precisar da ajuda de médiuns.
Realismo inverossímil que Franz Kafka havia destruído ironicamente com um texto transparente nas primeiras linhas de “A metamorfose: “Numa manha~, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, ta~o duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabec¸a, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posic¸a~o e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inu´meras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos”.
García Marquez faria da literatura simplesmente literatura.
O criador de Macondo abriu ou reabriu a porta da fantasia. Essa porta sempre existiu. Foi usada, por exemplo, pelos surrealistas. Até Balzac em “Séraphîta” delicia-se com a ambiguidade de um personagem homem-mulher, Seráfitus-Seráfita, antecipação da temática transgênero com tons de transfiguração e metamorfose. A realidade é estéril. A ficção tem de reinventá-la para que ela se torne prolífica. A escrita imaginativa de Gabo cria prole. Cada personagem se desdobra. O conceito de verossimilhança cede lugar à vertigem das mitologias cotidianas. Tudo é possível quando se libera o fluxo narrativo. Não?
A possibilidade é uma condição do imaginário como se pode ver nesta passagem delirante: “Certa ocasião, José Arcadio olhou para o seu corpo com atenção descarada e disse a ela: ‘Maninha, você é muito mulher’. Rebeca perdeu o domínio de si mesma. Voltou a comer terra e cal das paredes com a avidez dos outros tempos e chupou o dedo com tanta ansiedade que formou um calo no polegar. Vomitou um líquido verde com sanguessugas mortas”. O realista pergunta-se: “Bebeu, cara?”
Não, apenas se permitiu explorar sem pudor os desvãos da imaginação popular. Gabo compreendeu o óbvio e empreendeu o improvável: queremos fantasia. Se alguns buscam uma fotografia do real, outros sabem que o real é ele mesmo fantasmagórico, uma mentira contada pela câmara escura, uma ilusão da percepção domesticada. Seja como for, apostou e ganhou. Arranjou dinheiro para pagar o aluguel. O resto é o que viria naturalmente, aquilo de que ele se lembraria muitos anos depois na hora de receber o Prêmio Nobel de Literatura.
Haveria melhor final para “Cem anos de solidão” do que este? “Entretanto, antes de chegar ao verso final já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”. Cinquenta anos não bastariam para o tanto de antes sugerido naquele depois inicial lançado como isca para os irrealistas.