Juremir Machado da Silva

Garota do Rio

Anitta interpreta cultura brasileira

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Maluco e Milico, segundo as línguas sociais, afundaram-se. Anitta e o funk despertam amor e ódio. Ela, Neymar e Paulo Coelho são hoje as marcas mais fortes do Brasil no exterior. Os críticos dizem que ela só rebola. Os fãs garantem que ela esbanja talento, empodera as mulheres e desconstrói a narrativa clássica e elitista da cultura brasileira. O seu mais recente clipe, “Garota do Rio”, está mexendo com muita gente pelo mundo. Pode ser entendido como uma releitura do clássico “Garota de Ipanema”. Em termos musicais, segundo especialistas, é um “funk bossa nova”, meio pop, para inglês ouvir.

      Antropologicamente falando, caso essa expressão tenha sentido, o forte de Anitta é a performance. O vídeo vai do retrô ao pós. A “garota de Ipanema” tinha o corpo dito perfeito e o balanço da Zona Sul. Contra o padrão loura de olhos azuis, Anitta mostra ao planeta as garotas de Honório Gurgel e do Piscinão de Ramos. É outra pegada: plural em todos os sentidos: étnicos, corporais, culturais. Todas as alturas, todos os tamanhos, todas as cores, todos os desejos. Lúcia Murat dirigiu um documentário, “Olhar estrangeiro”, que mostra como filmes europeus e norte-americanos estereotiparam o Brasil a partir das ideias de sensualidade, malandragem, mulher pelada e sexo. Um dos filmes apresentava uma fila de garotas de bumbum para cima na praia.

      Anitta relê essa cena no seu clipe? É o mesmo por outros caminhos? Uma leitura sem má vontade assinala que há uma mudança radical: quem está no comando. A “garota do Rio” escolhe, impõe-se, não se submete, exibe seu corpo sem complexos, enfrenta a normatividade branca e rica. Céticos torcem o nariz sugerindo que é só jogo de cena. Lutar contra o seu tempo é derrota certa. Sabe-se que o novo sempre vence. Muita gente se surpreendeu com a repercussão da morte de Paulo Gustavo. Ele representou como poucos o humor atual e encarnou uma visão de mundo cada vez mais em voga. O mesmo se viu em programas como BBB21. Eu não assisti por falta de hábito e gosto. Mas a história da vencedora, a paraibana Juliette, comove milhões de pessoas. No futebol, o novo modelo, inspirado em Guardiola, veio para ficar por muito tempo. Toda resistência será o que é: derrota certa. O tempo não para de pedir passagem.

      Há duas formas de lidar com gostos: aderir ou resistir. Gostos costumam ser legitimados pela força simbólica de quem domina as culturas. As suas hierarquias vêm sendo desmontadas como arbitrárias. O paradoxo é que não gostar de certos gostos em tempos de liberdade absoluta de gosto pode levar a cancelamento. Anitta é um fenômeno. Ela tem reinterpretado a cultura brasileira com uma força impressionante. Para melhor ou pior? O tempo dirá. O samba era execrado. Venceu a guerra e tem gênios. Estudiosos quebram a cabeça: existe uma qualidade intrínseca das obras? Ou tudo depende de circunstâncias? Pode-se dizer que uma música é melhor do que outra? Ou tudo deriva do gosto de cada um e estamos conversados? Por que certas obras seduzem todo tipo de gente e outras não?

      Não serei a eu a resolver a questão do ovo e da galinha. Sei que Anitta parece recitar para muitos a frase de Zagallo: “Vocês ter que me engolir”. O furação Anitta demole construções seculares. Estrago? Toda crítica tornou-se um abuso de julgamento. Todos os gostos se equivalem. Não há fundamentação racional possível para a afirmação da superioridade de um gosto sobre outro. Mas todas as obras se equivalem? Gosto se discute, mas não se hierarquiza.