Juremir Machado da Silva

Geddel em quarto fechado

Michel Temer vive entre o ser e o nada.

Só não sabe quem é o ser.

Na sua condição de homem livre, escolheu existir por meio de um atalho.

Instalado, por força certamente da sua essência, no poder, atirou-se ocaso com certa pressa.

A fotografia oficial da sua posse é um elogio ao código penal.

Depois desse instante de glória, Temer passou de Sartre a Camus: rola a sua pedra.

Todo dia um dos seus experimenta viver entre quatro paredes sem janelas nem liberdades.

Dois dos seus ex-ministros, Henrique Eduardo Alves e Geddel Vieira Lima, foram das cédulas às celas.

Romero Jucá sobrevive à luz do sol graças à obscuridade do seu mandato de senador.

Moreira Franco protege-se com sua capacidade de contradizer seu sobrenome.

A fotografia da posse é uma colcha retalhada pela polícia a cada mês.

Até o desconhecido estafeta do presidente, Rocha Loures, o homenzinho da mala, sentiu náuseas na prisão, de onde ainda não deveria ter saído, mas para onde todos os enredos o levam de volta.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirma que se deve seguir a narrativa.

Para ele, criminosos de alto escalão não assinam suas obras nem passam recibo.

Basta-lhes ser ghost writer. A noção de autoria já não os nobeliza.

Temer avança rapidamente do ser para o nada.

A Polícia Federal come o seu fígado com bicadas rapaces.

A águia do parlamento se arrasta como um réptil do deserto do executivo.

Vez ou outra, porém, tem arroubos de pássaro altivo: quer voar, reformar e tocar o sol.

Então ouve os gemidos dos seus amigos presidiários e cai prostrado à espera de um novo dia.

O poder corrompe. A corrupção empodera.

A existência precede a essência. Mas, no caso de Temer e dos seus, não a nega.

Aguardemos os próximos capítulos.

A corrupção é uma obra aberta.

O autor se diz morto.

Os seus personagens vivem à solta.

O protagonista tem ar de espectro.

Até quando será?

Quando sairá do nada para virar nota de rodapé na história?