Não sou original. Digo sempre o que deve ser dito. Cultuo a clareza. Nunca me convenci de que o hermetismo aprofunda as ideias. Por tudo isso, sou pouco convincente. Vejamos.
Dizem tanta coisa. Dizem que a fruta não cai longe do pé. Dizem também que é dando que se recebe. Dizem também que o mundo dá voltas. E gritam: vira, virou. O PSDB virou e agora não quer ouvir falar em impeachment. O PMDB também. O DEM optou pelo mesmo caminho. O mais interessante é a situação da Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge. Ela não foi a mais votada por seus pares para o cargo. Chegou em segundo lugar. Mesmo assim foi a escolhida pelo presidente Michel Temer. Dizia-se que ela era pedra cantada. Jogaria fechadinha com o cacique do Planalto. No começo, muito no começo, ela despistou bem.
Vira, virou. Raquel Dodge definiu Geddel Vieira Lima como líder de organização criminosa. No popular, chefe de quadrilha. O que tem de mais nisso? Bem, todo mundo dizia que José Dirceu não podia ser chefe de quadrilha. Dizia-se que só podia haver alguém acima dele. No caso de Geddel, o homem dos 51 milhões em malas e caixas, não? O senador Renan Calheiros, detentor de vasta experiência no submundo da política, disparou no seu twitter: "Engraçado... Nunca soube que Geddel era o Chefe. Para mim, o chefe dele era outro". Não satisfeito com a provocação, Renan mostrou-se bom concretista: “...era ouTro”.
Se Renan Calheiros delata, sem pedir prêmio, como não acreditar nessa palavra tão espontânea? Ao designar Geddel como cabeça, Raquel Dodge livrou a cara de Temer. Assinou recibo de agradecimento pelo alto posto recebido. Tem mais: líder de organização criminosa pode fazer delação premiada? Para entregar quem? Outros comparsas. Mas os benefícios que pode receber como delator ficam limitados. O procurador da Lava Jato Carlos Fernando de Santos Lima deu uma pista: “Não haverá óbice para um acordo. Desde que não se ofereça imunidade". Traduzindo, ao ser classificado como líder de organização criminosa, ficou bem menos interessante para Geddel tornar-se delator, pois fica sem a possibilidade de negociar para não ser denunciado.
Jogada de mestre.
Vale lembrar que para Rodrigo Janot, antecessor de Raquel, Geddel e seus peemedebistas "orbitavam em torno da liderança e coordenação de Michel Temer". O que mudou? No mundo de Ali Neves e os 44 senadores detalhes fazem toda a diferença. O detalhe mais importante costuma ser quem denuncia e quem é denunciado. Pergunta-se:
– O senhor sabe quem está denunciando?
– Como assim?
– Sabe com quem está se metendo?
Uma coisa é denunciar novato no clube dos políticos, outra bem diferente é apontar o dedo para quem troca 33 mensagens de whatsapp com o mais poderoso ministro do STF. Aécio Neves e Michel Temer receberam o ilibado apoio de Paulo Maluf. O decano dos corruptos de estimação do Brasil defendeu o relator do caso Aécio, o tucano mineiro Bonifácio de Andrada, com fartura de elogios. A família de Bonifácio orbita na política brasileira desde a época de D. João VI. Não é coisa de amadores. Raquel Dodge, por seu lado, já mostra que tem notável saber jurídico. Joga com o regulamento embaixo do braço. Ao promover Geddel, rebaixou-lhe os prêmios e blindou o benfeitor Michel Temer. Fica uma pergunta inocente: Temer está aparelhando as instituições?
Feliz, Michel Temer condecorou Raquel Dodge com a medalha do mérito aeronáut
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Hoje, 19h30, palestrarei na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, onde lançarei “Raízes do conservadorismo brasileiro”.