Juremir Machado da Silva

Geisel autoriza execuções

Esse tema ainda vai dar muito o que falar.

É só o começo.

A farsa acabou de vez. Matias Spektor, da Fundação Getúlio Vargas, tirou o ditador Ernesto Geisel do armário e o jogou nos porões do regime que ele ajudou a construir e a comandar. Ao descobrir na internet o “memorando do diretor da Agência Central de Inteligência William Colby para o secretário de Estado Henry Kissinger”, o pesquisador abalou a narrativa das viúvas do regime. O documento revela o Geisel que alguns tentaram relativizar: o da política de execuções sumárias. Toda uma maquiagem malfeita foi para o espaço com um clique.

A ditadura nunca foi branda nem provisória. A tortura e as execuções começaram em abril de 1964 como provou o jornalista Márcio Moreira Alves em reportagens e num livro, “Torturas e torturados”, que balançou o coreto da época e chegou a ser censurado. Ernesto Geisel, enviado ao Nordeste pelo primeiro ditador, o aliado dos Estados Unidos Castelo Branco, para conferir os estragos de primeira hora, não quis admitir a verdade. Tinha vocação para ignorar o que podia atrapalhar os planos do seu campo. Era apenas o começo de uma história a ser revista.

Há um tom de humor grotesco involuntário na recomendação do ditador de plantão sempre pintado como homem moderado. Segundo o documento, “Geisel disse ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que muito cuidado deveria ser tomado para assegurar que apenas subversivos perigosos fossem executados”. Os assassinatos dependeriam do currículo da vítima. Naquele momento, o regime admitia ter matado 104 adversários políticos. Ninguém foi julgado por isso. Os ditadores morreram sem responder pelos seus crimes. A revisão da Lei da Anistia impõe-se como um dever de memória e de respeito às vítimas da violência oficial. Apologista da ditadura, o pré-candidato à presidência da República Jair Bolsonaro compara esses assassinatos com um “tapa no bumbum de um bebê”.

Enquanto a verdade da ditadura fica cada vez mais explícita, Porto Alegre insiste, com ajuda da justiça e de vereadores ligados de algum modo ao passado vergonhoso, em homenagear ditador com nome de avenida. Como o passado reaparece sob a forma de documentos, só resta aos admiradores da “democracia fardada” denunciar uma conspiração americana para prejudicar o Brasil neste momento de crise. Em 1964, as forças armadas brasileiras aliaram-se a um país estrangeiro para derrubar um presidente eleito. Em 1979, protegeram-se com uma lei de autoanistia e jamais responderam por esse crime de lesa-pátria.

Ernesto Geisel autorizou a continuação da matança sem maiores delongas nem crises de consciência. O que dirão as tais linhas ainda não “desclassificadas” (não liberadas para conhecimento público)? Certamente escondem a participação dos Estados Unidos nas execuções. Geisel, cantado em prosa e versa por historiadores amadores como o fleumático condutor da abertura lenta, gradual e segura para a democracia, depois de um final de semana de reflexão, mandou continuar matando inimigos da sua ditadura. Não faltará alguém para dizer: “Eram vagabundos”. Também não faltará quem diga: “Mas ele não era corrupto”. Moral dessa história trágica: não eram corruptos. Apenas assassinos?