Certos projetos em tramitação no Congresso Nacional me fazem pensar em Gogol
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"Depois do carneiro, atacaram uma empada de queijo. Depois um peru recheado
de todo tipo de delícias. Quando se levantaram, Tchitchicov sentiu-se uns cinquenta
quilos mais pesado.
Então foram para a sala de visitas, onde havia uma geleia esperando por eles.
Refastelaram-se na poltrona. Sobakevitch persignava-se e cobria o rosto com as mãos
o tempo todo.
- Gostaria de falar com o senhor a respeito de negócios. – disse Tchitchicov,
quando viu que estavam sozinhos.
- Sim, diga.
Nosso herói começou uma conversa enrolada, que começava falando da
grandeza do Império Russo. Disse que nem o Império Romano fora tão vasto e que os
estrangeiros até se espantavam. Disse também que, graças à regulamentação desse
Império tão grandioso, as almas mortas continuavam a ser computadas como vivas até
o próximo recenseamento, de modo a não sobrecarregar a máquina estatal, já por si
tão complicada...
Sobakevitch apenas escutava, de cabeça baixa.
- Mas veja. – continuou Tchitchicov. Esse medida, apesar de tão acertada, é
injusta para com os proprietários rurais, já tão onerados por uma vasta gama de
obrigações e que, mesmo assim, continuavam a ter que pagar impostos sobre seus
camponeses mortos, como se eles estivessem vivos. Assim, meu senhor, por meu
grande respeito ao senhor, estou disposto a tomar para mim esse pesado encargo.
O proprietário ouvia tudo calado, de cabeça baixa, sem expressar qualquer
sentimento. Parecia que não tinha uma alma, ou se tinha, ela ficava guardada em outro
lugar.
- Deixe-me ver se entendi. O senhor precisa de almas mortas...
- Inexistentes.
- Devo ter algumas, por que não?
- E caso tenha, imagino que o senhor queira se ver livre delas...
- Por um bom preço, certamente.
“Mas esse é dos bons. Mal abri a boca e ele já está vendendo!”, pensou Tchitchicov.
- E por quanto o senhor... venderia?
- Como somos amigos... vejamos... cem rublos cada uma.
- Cem rublos? – exclamou Tchitchicov, sem acreditar em seus ouvidos.
- O senhor está achando caro? Qual seria o seu preço por acaso?
- Acho que estamos enganados, ou esquecemos o assunto de nossa conversa, mas creio que oitenta copeques está de bom tamanho...
- Oitenta copeques? Eu não estou vendendo palha...
- Mas também não é gente viva.
- Mas são gente da melhor espécie! Bons trabalhadores! Duvido que o senhor vá
encontrar quem lhe venda almas recenseadas por um preço tão ínfimo.
- Mas não servem para nada. São almas mortas! Está bem. Um rublo e meio por
cada peça.
- O senhor está me ofendendo. Estou lhe oferecendo ótimos trabalhadores e o
senhor quer pagar uma pechincha? Vamos, melhore seu preço.
- O máximo que posso chegar é a dois rublos.
- Por favor, por favor. Outro homem, um gatuno, poderia lhe vender lixo. Eu não.
São todos homens reforçados. Entre eles há um construtor de carruagens que faz
carruagens de mola tão boas como as que se vê em Moscou. Dessas para durar a vida
inteira, e envernizadas!
Tchitchicov ia abrir a boca para dizer que o tal construtor estava agora debaixo
de sete palmos e que nunca mais iria construir uma carruagem no mundo dos vivos,
mas o outro pegara corda e desembestara a falar:
- E tenho também um carpinteiro... homem bem construído. Podia até servir na
guarda nacional e não ia fazer feio. E Miluchkin, o oleiro! Era capaz de colocar estufa
em qualquer tipo de casa! E o sapateiro. Em um piscar de olhos fazia um par de botas
de se tirar o chapéu! Pode ter certeza, meu senhor, eu vendo mercadoria de qualidade...
- Mas, com licença, por que razão o senhor fica aí falando essas coisas de
gente que agora está morta? É tudo gente morta, não serve para nada.
- Sim, são gente morta, é verdade. Mas o que dizer daqueles que agora são
considerados vivos? São moscas comparados com esses que agora estão mortos.
- Mas pelo menos eles existem, enquanto esses gigantes de que o senhor fala não passam de sombras.
- Sombras? Nunca houve homens como aqueles.
- Não, decididamente, mais do que dois rublos não posso pagar.
- Está bem, está bem, só para que o senhor não saia por ai dizendo que não
quis fazer nenhuma concessão... setenta e cinco rublos.
“Estou feito”, pensou Tchitchicov. “Esse aí me toma por otário!”.
- Acho que há algum engano. Talvez seja uma comédia. O senhor é inteligente,
certamente sabe que o artigo em questão não vale nada...
- Mas o senhor está querendo comprar! Logo, o senhor precisa...
Aqui o nosso herói não teve o que responder. Começou a falar de certas
circunstâncias do clã, da família, mas o outro o interrompeu:
- Não me interessa nada disso. O que interessa é que tenho um produto e quero
vender, e o senhor quer comprar. Só falta combinar o preço.
- Está bem. Dois rublos...
- “Quando começa a falar a esmo, a gralha só faz repetir o mesmo”, diz o ditado popular. O senhor se agarrou a esses dois rublos e não quer mais sair deles. Por favor, faça o favor de fazer uma oferta de verdade...
- Senhor, eu lhe dou mais meio rublo e isso é o máximo a que posso chegar.
- Pois que seja, eu também lhe farei minha última oferta: cinquenta rublos. Uma
pechincha pela mercadoria que estou lhe vendendo...
“Mas que peste!”, pensou Tchitchicov, contrariado.
- Como se isso fosse um negócio sério! Se eu quiser, em qualquer lugar me dão
almas de graça e ainda vão me dizer obrigado por eu lhes tirar das costas os
encargos...
- Mas talvez o senhor saiba que esses negócios não são totalmente lícitos. Se
eu ou qualquer outra pessoa revelar isso, a pessoa em questão perderá todo o crédito...
“Ah, então é nisso que ele está pensando!”, refletiu Tchitchicov.
- Pois saiba que não tenho nenhum interesse nessas almas. São apenas um pequeno capricho, para ajudá-lo, mas como vejo que o senhor não está interessado, adeus.
- Está bem, fique, meu amigo. Trinta rublos e não se fala mais nisso.
- Vejo que o senhor não está interessado. Então, adeus.
Dizendo isso, Tchitchicov levantou-se, mas o outro segurou-o pela mão com suas mãos poderosas, ao mesmo tempo que lhe pisava o pé:
- Oh, desculpe, senhor. Acho que acabei lhe causando incomodo... mas por favor, sente-se: vamos negociar. Quanto o senhor me oferece?
- Dois rublos e meio.
- Nem mais um copeque?
- Nem mais um copeque.
- Está bem. Fecharei negócio com o senhor, mas só porque tenho um coração de manteiga e gostei do senhor. Precisamos, claro, lavrar o contrato para que fique tudo em ordem.
- Agora mesmo. – disse Tchitchicov. Mas preciso que o senhor faça uma lista de seus camponeses.
O proprietário não perdeu tempo e ali mesmo, na escrivaninha, pôs-se a elaborar uma lista de próprio punho, colocando não sós os nomes, mas também qualidades de cada uma das almas. Por falta do que fazer, nosso herói ficou atrás dele, admirando sua estrutura: “Sim, senhor, Deus foi generoso com esse aí. É o que se costuma chamar de mal cortado, mas bem costurado!”.
- A lista está aqui. – anunciou Sobakevitch.
Tchitchicov pegou a lista e admirou a meticulosidade e precisão. Estavam anotados os nomes, idade, estado civil e profissão de cada um, além de anotações sobre características de seus comportamentos. Dava gosto de olhar.
- Agora, se o senhor não se incomodar, gostaria de um adiantamento...
- Um adiantamento? Mas o senhor vai receber tudo na cidade.
- É um costume. Sem adiantamento não se faz negócio.
Tchitchicov levou a mão ao bolso.
- Está bem. Tome aqui dez rublos.
- Mas só isso?
- Não tenho mais. Vim sem dinheiro.
- O senhor tem sim.
Essa última afirmação foi tão categórica, que Tchitchicov se viu sem ação.
- Está bem. Aqui tem mais quinze rublos. O recibo, por favor...
- Mas para que o senhor quer um recibo?
- É sempre bom ter um recibo nessas situações.
- Está bem, mas me passe o dinheiro primeiro.
- Não, o senhor passe o recibo primeiro.
Assim, os dois trocaram recibo e dinheiro ao mesmo tempo. Quando o papel
passava para as mãos de um, as notas iam para as mãos de outro.
Estando acertado o negócio, Tchitchicov pediu ao amigo uma coisa, que ficasse
tudo entre eles.
- Isso se entende por si mesmo. O que se realiza entre amigos, fica entre
amigos. Adeus, foi muito bom fazer negócios com o senhor. Volte outro dia para almoçar e quem sabemos podemos nos ajudar mutuamente...
“Ah, sim, pode esperar, seu unha de fome!”, pensou Tchitchicov, “Arrancou-me dois rublos e meio por almas mortas!”.
Tchitchicov ficou mais aborrecido ainda ao ver que o outro se plantara no pátio, observando para onde ele dirigia. Nosso herói queria visitar Pliuchkin, cujos camponeses morriam como moscas, mas não queria que Sobakevitch soubesse. Assim, ele deu ordem a Selifan que saísse de lá numa posição em que fosse difícil ver para onde ia a carruagem. Já na estrada, ele parou um camponês que carregava um tronco de árvore no ombro:
- Ei, barbudo! Diga, onde fica a casa de Pliuchkin?
- Quem?
- Como é, não sabe?
O camponês deu de ombros, mas isso é modo de dizer, já que ele estava com um tronco enorme de árvore sobre os mencionados ombros.
- Não é possível. Já está de cabelos brancos e não conhece o senhor que não dá comida à sua gente.
O rosto do camponês se iluminou:
- Ah, o remendado! – e indicou o caminho com o beiço."