Gore Vidal morreu no último dia 31.
Todo mundo sabe disso.
Foi um dos intelectuais americanos mais iconoclastas.
Esculhambou o mito da fundação da América.
Disse que Washington usava dentadura de madeira, nunca venceu uma batalha de verdade, enriqueceu honestamente, graças ao casamento, e só ganhou dos ingleses por ter enfrentado um general que não amarrava a bota de Napoleão.
Cultura avançada não dá mole para os pais fundadores.
Parafraseando Brecht, pobre de um país que precisa de mitos fundadores.
Vidal resumiu a criação dos Estados Unidos – segundo ele nem tão unidos assim – a uma revolução de proprietários.
Qualquer semelhança como alguma coisa mais ao sul é mera coincidência.
Quase nenhum presidente americano escapou da língua satírica de Vidal.
Um bando de canalhas, exploradores, loucos por dinheiro, saqueadores e por aí vai.
Um deles, por exemplo, comprou a Lousiania, 23% do território americano, o que Vidal resumia a produto de um roubo.
Chegando mais perto de nós, Vidal rotulou John Kennedy, o mauricinho dos anos 1960, que comeu Marylin Monroe, seu principal feito, mas acabou assassinado, tendo tido tempo de ajudar a financiar o golpe militar no Brasil, como o pior presidente dos Estados Unidos. É uma façanha, tal a lista de incompetentes que ele mesmo apresenta.
Gore Vidal se deu mal no Brasil.
Os seus principais admiradores são reacionários.
Praticam um gênero de iconoclastia original: a veneração aos poderosos de direita.
É o que chamamos de antropofagia.
Vidal passou décadas apanhando dos críticos literários americanos.
Era o melhor, mas o tratavam como o pior.
Não se dobrava diante do clamor popular, esse tipo de história em que a opinião conservadora, levada pela mídia ainda mais conservadora, exige condenações mesmo com falta de provas. Dizia o que pensava e seguia em frente.
Se eu não fosse tão modesto, parafrasearia Flaubert e diria: "Vidal sou eu".
Agora.
Não o farei.
Por modéstia e arrogância.
Sou melhor.
O Brasil é que não está à minha altura.
Mas vou elevá-lo para que me reconheça.
Se não conseguir, vou plantar batatas.
Afinal, como já foi dito por um célebre escritor, ao vencedor, as batatas.
Por que não também ao perdedor?
Vidal se deu tão mal no Brasil que o único a compreendê-lo corretamente sou eu.
Alguns dos seus outros admiradores famosos dão vergonha.
Rodam em teste de interpretação de texto.
O que fazer? Temos 76% de analfabetos funcionais.