Juremir Machado da Silva

Gre-Nal em Palomas

Gre-Nal em Palomas
















Não sei se vocês sabem, mas o primeiro Gre-Nal disputado em Palomas terminou empatado: 23 a 23. Foi em 1931. O placar só não foi mais dilatado por causa de dois banais acidentes de percurso. A primeira bola, costurada com tentos de couro de boi, furou depois de um lance emocionante em que Bezerro invadiu a área colorada como um foguete e mandou o canudo: um dedaço em diagonal capaz de fazer inveja a qualquer um, mesmo ao Perico, conhecido como “Canhão do Cerro de Palomas”. A peronha, como a bola era chamada carinhosamente, certamente por influência uruguaia, rodou descontrolada e explodiu no ar para delírio da massa gremista: 12 torcedores desvairados.

A segunda bola foi tirada do campo de jogo quando a mulher do Ladário apareceu e disse que era hora de buscar as vacas para encerrar os terneiros. A torcida bateu pé, vaiou, ameaçou quebrar tudo ou chamar a Brigada. Não adiantou. Afinal, o único brigadiano da vila, o Tonico, era o centroavante do Inter. Tinha marcado 19 dos 23 dos gols do seu time e sentia que ainda podia guardar mais alguns. Não hesitou: deu voz de prisão à mulher do Ladário. Fechou o pau. A mulher invadiu o gramado de vassoura na mão e disparou pauladas para todo lado. Tonico tentou mostrar que aquela atitude constituía grave desacato. Não foi ouvido. Levou uma vassourada no ouvido esquerdo que o deixou surdo por uma semana. Felizmente tudo terminou em paz. Fizeram no dia seguinte, um domingo ensolarado, um assado (churrasco, em Palomas, era coisa de almofadinha) de confraternização.

Espetáculo à parte nos Gre-Nais de Palomas era o narrador, Atanásio da Silveira, um gauchão mais largo do que um armário de oito portas e mais alto do que um jerivá sem folhas. Foi ele quem inventou o primeiro bordão de narrador de futebol do mundo (conferir “Enciclopédia do Futebol em Palomas”, organizada por Eleutério de Oliveira e Neco do Boteco): “O balão de couro subiu, subiu, subiu, enquanto ele desce eu fecho e fumo um palheiro”. E fumava mesmo. Inter e Grêmio de Palomas jogavam um futebol alegre e ofensivo. O grande time do Inter da época formava com Boi Preto, Pitangueira, Ladislau, Alfeu, Tisnado e Coronel Gumercindo; Zé Corno, Balaio, Tadeu da Vilma, Tonico e Tropeiro Velho. O Grêmio tinha Alemão da Zildinha, Fabiano Louco, Zé das Esporas, Retinto, Pitanga e Neco Véio; Perico, Bezerro, João Corno, Ladário e Furioso.

Depois desse lendário primeiro Gre-Nal dos 23 a 23, os resultados ficaram mais abertos. O Grêmio ganhou o segundo confronto por 43 a 0. O Inter revidou no terceiro com um 45 a 2. Os jogos começavam pelas duas horas da tarde e só terminavam quando não havia mais luz natural. Duravam, em média, cinco horas. Salvo quando a bola furava. Teve um Gre-Nal que terminou sendo jogado com uma bola de meia. Noutro, foi usada uma cabeça de boneca. Finalmente veio a profissionalização e os resultados se tornaram bem menos trepidantes. Em 1952, aconteceu o primeiro 0 a 0. De lá para cá, o empate predomina. A maior goleada nos últimos anos foi um 5 a 2. Uma pena!