Eu não tenho dúvida de que Guardiola é um treinador genial.
Talvez o melhor técnico de todos os tempos.
Só vi três que realmente introduziram mudanças táticas no futebol moderno: Rinus Michels, Cruyff e Guardiola.
Michels criou o carrossel holandês de 1974, que Tostão, o melhor e mais complexo comentarista brasileiro de futebol de todos os tempos, chamou, em texto para a revista Piauí, de "pelada organizada".
Cruyff inventou o estilo Barcelona de jogar.
Guardiola conseguiu revolucionar o Barcelona pós-Cruyff.
Vi Manchester City, de Guardiola, e Barcelona, sempre de Guardiola.
Deu City por 3 a 1.
Foi um jogo de Guardiola contra Guardiola. Entre o Guardiola do City e o que o Barcelona conserva de Guardiola.
Os guardiolistas só verão no jogo as virtudes de Guardiola. Andavam tensos com o começo vacilante do mito no clube inglês. E abalados pelo fato de Guardiola não ter vencido a Liga dos Campeões com o Bayern de Munique.
De certo modo, depois do Barcelona, Guardiola só venceu "regionais". Só Gauchão.
O único campeonato europeu com dimensão de um campeonato nacional como o Brasileirão é a Liga dos Campeões.
Os campeonatos nacionais europeus são disputas entre dois ou três clubes.
Só a Liga dos Campeões tem vários candidatos ao título.
O jogo entre City e Barcelona foi decidido mais por circunstâncias de jogo. A arbitragem foi péssima. Errou na não aplicação de cartões amarelos óbvios e em não marcar dois pênaltis para os ingleses. Errou feio no terceiro gol do City. O jogador da equipe britânica ajeitou a bola com o braço para a conclusão do companheiro.
Tudo indicava, ao final do primeiro tempo, que Guardiola perderia mais uma para o Barcelona.
No segundo tempo, Guardiola adiantou mais a sua marcação, que ficou muito alta.
O Barcelona, por conservar as impressões digitais de Guardiola, caiu na armadilha.
Como assim?
Os times de Guardiola são dogmáticos: não podem dar chutão. Em qualquer situação, devem sair jogando. Ontem, os goleiros eram acionados a todo momento para jogar com o pé com bolas atrasadas em situações de muito perigo. O Barcelona, herança de Guardiola, foi vítima do contraveneno de Guardiola. O lateral não quis afastar a bola, passou para a frente da área, que estava cercada, sitiada. O atacante apertou e tomou a bola. Passou. Gol.
Guardiola lapidou o goleiro que defende como líbero, o lateral/ala que não dá chutão, o zagueiro e o volante que sempre saem jogando. Eles acreditaram e introjetaram a lição. Guardiola usou o antídoto: aperta que eles entregam.
Lobotomizado, convencido de que não pode jogar feio em situação alguma, o jogador fica sem saída.
O City de Guardiola venceu o Barcelona de Guardiola.
A arte de Guardiola venceu o princípio guardiolista fixado no Barcelona: o horror ao pragmatismo.
Em 45 minutos, Guardiola foi do inferno – praticamente eliminado na primeira fase – ao paraíso: candidato ao título. Será mais difícil, talvez, para o City enfrentar um Atlético de Madrid, que não tem o dogma da elegância permanente. O futebol arte é o ideal: ganhar jogando sempre bem. A realidade nem sempre permite.
A força do resultado é tão impactante que a vitória do City reanimou o mito.
Os guardiolistas estão de volta.
Houve um tempo em que as estrelas do cinema eram os atores.
Surgiu o cinema de autor. Uma nova onda.
Estamos na era do futebol de treinador.
Tostão afirma que comentaristas jornalistas se preocupam mais com aspectos táticos do que comentaristas ex-jogadores
Mas futebol é mistura maravilhosa entre técnica, estratégia, ciência e acaso.
Navegar é preciso. Jogar futebol não é preciso.
Guardiola é genial. A vida nem sempre.