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Guerrilha do falso?

Sobre um conceito antecipado por Umberto Eco

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Fakenews sempre existiram? São uma nova manifestação dos rumores e boatos estudados pelo sociólogo francês Jean-Bruno Renard? O mundo está espantado com o que hoje é chamado de fakenews: notícias falsas se espalham pela internet, especialmente nas redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram). Em um artigo publicado na Itália em 1978, em L'Espresso, Falsificação e consenso, Umberto Eco já falava desse fenômeno. O texto faz parte de seu livro "Viaggio nella irrealitá quotidiana", publicado no Brasil sob o título "Viagem na irrealidade cotidiana" (1984. Tem-se a impressão de que o grande intelectual tratava de um mundo ingênuo e infantil. Nós jogamos.

        De que Eco estava falando? De ligações telefônicas não pagas feitas por alunos que conheciam as senhas de executivos de empresas do setor. De artigos falsos atribuídos a celebridades como um poema enviado ao jornal Corriere della Sera sob o nome do cineasta Pier Paolo Pasolini. Na verdade, não eram inocentes essas brincadeiras. Pagar em massa um centavo a mais em cada conta de telefone era capaz de abaixar todo o sistema, forçando-o a enviar milhares de cheques de reembolso para as pessoas envolvidas, levando os computadores à pane por excesso da honestidade e da burocracia incontornável. Umberto Eco soou o alarme: o perigo estava na "falsificação da guerrilha".

        Passados 50 anos, as fakenews decidem as eleições presidenciais nos Estados Unidos ou no Brasil, disseminadas por aplicativos como o WahtsApp. Para a Eco, é preciso "consenso molecular" para que as coisas funcionem normalmente. Precisamos acreditar. O que acontece se todo mundo começa a espalhar mentiras? O sistema reposiciona-se para resistir. E se todos adotam a falsificação como estratégia de resistência à falsificação? O princípio social é dar "notícias verdadeiras". E se notícias falsas forem usadas contra notícias falsas para vingar ou neutralizar o inimigo? O que resta da confiança?
        Neste jogo perigoso, Eco fala sobre o uso de técnicas para melhor mentir e fazê-lo o mais rápido possível. Ele até cita a possibilidade de um político publicar "comunicados falsos" para a imprensa. Quem vence nessa guerra do falso? O mais mentiroso. Ele se torna o novo chefe, o patrão. As fakenews seriam a guerrilha da falsificação na fase industrial? Eco garantiu que remover um, dez ou cem Moro não enfraquecesse o sistema. Contra o falso devastador, sempre se levantaria uma parte da sociedade "fanática de verdade". O Moro de Eco era Aldo Moro, primeiro-ministro italiano sequestrado pelas Brigadas Vermelhas. Os comunistas não eram falsos nessa guerra.
        O Brasil de 2019 tem seu Moro, Sérgio Moro, o algo de Lula. Para ele, a forma de obter informações era menos importante que seu conteúdo. Uma semana antes do segundo turno eleitoral, voltou a usar um vazamento para atingir Lula: levantou o sigilo da confissão de delação do ex-ministro de Lula, Antonio Palocci, acusando o ex-presidente de corrupção. Era algo velho, requentado, estratégico. Uma semana depois das eleições, Moro se tornou o ministro do vencedor. Em nome de uma cruzada moralizadora, todas as falhas de Moro foram perdoadas. A parte fanática da verdade não se importava com a forma.
        Umberto Eco advertiu: a subversão, mesmo como utopia, produz a "realidade da reação". Em 2019, o Intercept Brasil recebeu um arquivo contendo conversas entre o juiz Sérgio Moro e membros do Ministério Público. O juiz e a promotoria trabalharam juntos para produzir provas contra Lula. No Brasil, não há juiz investigador. O magistrado que autoriza e segue a investigação é o mesmo que dá a sentença. Ele deve ser imparcial e não pode aconselhar nenhuma das partes interessadas.
        De onde veio o arquivo Intercept? Vazamento ou hacker? Sérgio Moro e os procuradores gritaram: falsificação. Eles atacaram a formna para desacreditar o conteúdo. A palavra fakenews não para de ser pronunciada. O jornalista responsável pelo site tem sido acusado de cumplicidade com criminosos. Contra o vazamento de Moro para chegar ao poder, seus oponentes foram forçados a usar vazamentos para neutralizá-lo? Moro publica comunicados contra as revelações do Intercept, que responde com outras revelações, que transformam as notas oficiais do ministro em comunicados falsos. O arquivo do Intercept parece inesgotável. Moro está agonizando em público.
        Por um lado, ele diz que tudo é normal nas conversas reveladas. Por outro lado, espalha a suspeita de que o chamado hacker adultera, modifica ou inventa os diálogos em questão. Por que um hacker se daria tanto trabalhado para inventar diálogos normais, perfeitamente legais? Moro luta para se manter credível. A mudança de lado não o ajuda.
        Como pode uma sociedade que aceitou, em nome da verdade maior, violar suas normas e permitiu vazamentos e falsas declarações, resistir agora a uma onda de vazamentos em reação àquele que se tornou o novo do poder? Tudo o que a sociedade parece ter a fazer é apostar em sua habilidade em transformar o verdadeiro em falso. Ou convencer que apenas o estado tem o direito de recorrer a vazamentos para influenciar a opinião pública. A guerra continua. Agora é industrial.