Karl, o marxista
Hoje faz duzentos que nasceu o autor com mais impacto na vida dos homens modernos: Karl Marx. Agora que o comunismo, inspirado nas suas críticas e ideias, está em decadência, há um país de apenas um bilhão e trezentos milhões de habitantes, a China, que ainda, de algum modo, reconhece-se no seu legado. Eu nunca fui marxista. Estou velho demais para começar. Não posso, porém, deixar de reconhecer que um espectro ronda o mundo. É o fantasma de Karl, o insubmisso. Mais do que prometer o paraíso futuro, Marx decodificou a engrenagem do capitalismo, que tratou de absorver parte da crítica para se manter.
Poucos são os autores cujos nomes viram qualificativos. Quantos já viveram e morreram pelo marxismo? Quantos ainda se dizem marxistas? Quantos estudos marxianos? Quantas vezes o nome de Marx já foi citado por toda parte? Quem definiu com tanta precisão como ele um modo de produção, de vida e de organização social? “A riqueza das sociedades onde rege a produção capitalista configura-se em ‘imensa acumulação de mercadorias, e a mercadoria, isoladamente considerada, é a forma elementar dessa riqueza”. O capitalismo é o sistema onde tudo se torna mercadoria. Guy Debord, um dos seus discípulos tardios, escreveria, em 1967, uma síntese em tom de epitáfio para as ilusões socialdemocratas de muitos: “O espetáculo não canta os homens e suas armas, mas as mercadorias e suas paixões”. O espetáculo é o mundo como mercadoria.
Karl Marx é um nome que não produz indiferentes. Amado e odiado, venerado e conspurcado, continua a ser lido e discutido. Em seu nome foi construído um império, o soviético, e erguidos campos de concentração. Em seu nome se sonhou com a liberdade mais ampla possível e se praticou genocídio. Ele já estava morto. Na sua obra não se encontra autorização formal para tantos desatinos. O marxismo sempre quis ser ciência. É uma aspiração que sempre dividiu com a astrologia. O tempo das leis da história entrou em declínio. Salvo para aqueles que creem. As crenças são inabaláveis e prescindem da razão. A própria crença na razão absoluta vem sendo relativizada.
O intrépido Karl não perdoava a inação: “Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de várias formas. O que importa é transformá-lo”. Os seus seguidores trataram de por as suas ideias em prática. Ou, melhor, em praticar transformações a partir das suas constatações sobre o funcionamento do capitalismo. O marxismo fracassou. O capitalismo jamais eliminou as misérias do mundo. Muitos marxistas alegam que os regimes ditos comunistas foram só deturpações das ideias de Marx. Capitalistas sustentam que só o liberalismo econômico completo pode resolver os problemas que ainda subsistem.
Max Stirner, contemporâneo de Karl Marx, desconfiava do comunismo e do capitalismo. Anarquista, disparava contra tudo e todos. Um exemplo: “O juiz está perdido se deixa de se comportar como uma máquina, se não tiver o apoio das ‘regras que servem para estabelecer a prova’. Se assim não for, ele tem apenas uma opinião como qualquer outro, e se decidir de acordo com essa opinião isso não é considerado um ato oficial; como juiz, ele só pode decidir de acordo com a lei. É caso para louvar os antigos parlamentos franceses, que examinavam eles mesmos o que era de direito e o faziam registar depois da sua aprovação. Esses, pelo menos, julgavam à luz do seu próprio direito, não se deixavam reduzir a máquinas do legislador, se bem que, enquanto juízes, tivessem de se transformar em máquinas de si mesmos”.
Liberais e marxistas ainda praticam um jogo macabro: quem matou mais? O comunismo ou o capitalismo? Contas são feitas. Metodologias são empregadas. Para Stirner eram dois sistemas escravizadores. A palavra “comunista”, como categoria da acusação, está novamente em moda no Brasil. Talvez tenha a ver com esta observação feita num clássico marxista, “A ideologia alemã”: “De fato, para o materialista prático, ou seja, para o comunista, é mister revolucionar o mundo existente, atacar e transformar praticamente o estado de coisas que encontra”. Nessa perspectiva, haveria duas “classes”, a dos que querem conservar e a dos que querem transformar revolucionando. Ou não?
Há quem queira transformar para conservar. Teriam Marx e Engels razão? “Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, ou seja, a classe que tem o poder material dominante numa dada sociedade é também a potência dominante espiritual. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe igualmente dos meios de produção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles a quem são recusados os meios de produção intelectual está submetido igualmente à classe dominante”. Nunca é demais suscitar o debate. Talvez seja mesmo a tarefa mais importante numa época de polarização em que todos querem falar sozinhos. Como não sou e nem serei marxista, posso examinar essas palavras com serenidade. O que diria Karl Marx do marxismo praticado em 2018?