É de praxe tentar tirar lições de tudo. Qual a grande lição desta Copa do Mundo da Rússia? Talvez a de que não há lição. Essa conclusão não será aceita. Os irredutíveis querem ensinamentos, exigem uma moral da história. Não os decepcionarei inteiramente. A Copa nos mostrou, mais uma vez, que o desempenho de um time dentro de campo dificilmente pode ser explicado pela história geral da nação. É verdade que a França multiétnica é mais bonita e vencedora do que as suas versões originais. O Brasil não perdeu por causa da corrupção na CBF, que precisa ser extirpada, nem por falta de planejamento. Perdeu por ter sido superado em jogos com seus acidentes e circunstâncias. Um jogo é sempre uma caixinha de surpresas. Que belo clichê!
A maior decepção da Copa para mim foi o árbitro de vídeo: falhou várias vezes, foi omitido em outras, ajudou a França na final. Não foi falta na origem do primeiro gol. O VAR não se mete nesse tipo de lance. O segundo gol surgiu de um pênalti inexistente. Não houve intenção do croata de meter a mão na bola. Por que o VAR falha? Porque imagens mentem. Precisam ser interpretadas por seres humanos. Essa é a notícia ruim e, ao mesmo tempo, a notícia boa da Copa. As polêmicas vão continuar. Futebol é discussão. Foi ou não foi? De agora em diante, teremos a intrigante pergunta: o VAR errou ou não? Eu temo pelo futuro. Sou paranoico. Acho que o VAR ainda dará títulos para o Corinthians. Sou bairrista: já vejo o VAR surrupiando a periferia.
Gosto das Copas por não ser possível a um país comprar os melhores jogadores e formar o melhor time pela força do dinheiro. Não foi uma Copa de brilho extraordinário. Modric, escolhido melhor jogador, foi apenas mediano. Recebeu o prêmio como consolação para a derrota croata. Cristiano Ronaldo, ao fazer três gols na primeira partida, sinalizou que algo de fantástico aconteceria. Não se consumou. Messi esbarrou na sua maldição pessoal. Neymar foi engolido por seu narcisismo, embora tenha sido, de fato, caçado em campo. Tite encolheu no caminho. Fez bom trabalho, mas é mais um motivador, estilo Lair Ribeiro, do que estrategista. Não soube domar Neymar. Erro grave. Ainda dá tempo. Vai ser preciso ter foco e menos postura de paizão.
Já estou com saudade da Copa. Era tão maravilhoso quebrar a rotina com jogos empolgantes e decisivos. Somos eternos camponeses. Como não dependemos mais, nós, os urbanos, das semeaduras e colheitas e das estações do ano para a organizar a vida, embora conservemos como resquício o interesse obsessivo pela previsão do tempo, precisamos de eventos que funcionem em nossas confusas existências como os solstícios de inverno e outros fenômenos naturais capazes de nos servir de motivação cultural para tocar os barcos e não colocar as carretas na frente dos bois ou desistir deles. Outra lição da Copa? O fato de a equipe da França ser multiétnica não elimina a discriminação racial e a exclusão social em território francês. Mas pode ajudar.
Na verdade, eu tirei uma lição forte da Copa: que belo entretenimento! Como eu me distraí. Fui feliz a cada prorrogação. Seis minutos de acréscimo, com gols, me garantiram latifúndios de alegria.