Meu livro "Jango, a vida e a morte no exílio" já está em sua segunda edição.
O filme de Margarethe von Trotta mostra a filósofa Hannah Arendt descobrindo a banalidade do mal, por meio do julgamento do nazista Eichmann, um burocrata que se declarou apenas cumpridor de ordens, e enfrentando a fúria de todos os que, legitimamente feridos pelo holocausto, não podiam aceitar que o mal fosse tivesse funcionários burocratas e funcionasse como uma engrenagem banal.
Hannah Arendt foi tratada como ignorante por saber mais do que os seus críticos.
Foi vista como arrogante e insensível por não abrir mão de suas ideias pertinentes.
Recebeu conselhos estúpidos e condescendentes de gente menos preparada do que ela.
Não seria inadequado inventar uma síndrome do anti-Hannah Arendt. É o diagnóstico a ser aplicado a todo prejudicado intelectualmente – não se deve jamais dizer idiota, imbecil ou cérebro de ervilha – que, em nome do senso comum, da sensatez e do pensamento correto, dá sugestões simplórias, conselhos bobos, recomendações patéticas ou indicações de comportamento covardes, a quem está vendo à frente. O sujeito que sofre de síndrome anti-Hannah Arendt fala em crítica construtiva – essa filosofia de autoajuda e de rotary club – e toma seu reacionarismo por prova de realidade.
Intelectual, Hannah Arendt enfrentou o monstro dos olhos opacos, o senso comum, que se apresenta como representação dos homens de bem, e não cedeu. Ela tinha razão e não sentia medo.
Hannah Arendt sou eu!
Eis o meu lado arrogante, implacável e soberano.
Hannah Arendt sou eu, mas eu não sofro de bovarismo (o homem do senso comum dificilmente leu Flaubert, embora não esteja livre de uma traição por viver na mediocridade ou na midiocridade).
Sou Hannah Arendt desde sempre.
Sou Hannat Arendt na busca por explicações mais consistentes para as manifestações que tomaram conta do Brasil nos últimos meses. Reduzi-las a ações de baderneiros de partidos extremistas apaga os transbordamentos, anula o novo e impede de ver a profundidade dos acontecimentos.
Essa redução é típica de quem enxerga pouco e vê barras escuras onde há pontilhados.
Há violência no ar. Violência física (black bloc) contra violência simbólica (sistema instituído). A condenação à violência é um pressuposto insuficiente. Cabe compreender a raiz dessa violência, a banalização desse mal como, quem sabe, contrapartida à banalidade do mal da indiferença.
O senso comum apresenta-se costumeiramente como cheio de indignação moral, a indignação da estupidez que não se questiona, não duvida de si, não reflete fora do seu paradigma.
O senso comum não representa os indignados que se sentem como Hannah Arendt.
Minha última atitude Hannah Arendt é meu livro Jango, a vida e a morte no exílio. Nele, contrariando expectativas da mídia sensacionalista, da Comissão da Verdade e de parte da esquerda, sustento que dificilmente Jango foi assassinado, o que não representa um bônus para a ditadura, mas uma desconstrução das narrativas interessadas no assassinato como forma de mitificação.
Sustento outras teses que me levam ao cadafalso:
1) Jango é um herói que salvou o Brasil duas vezes de guerras civis.
2) Quem derrubou Jango e instalou a ditadura no Brasil foram os jornais O Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Tribuna da Imprensa, o Dia, Correio da Manhã, Jornal do Brasil e outros.
3) Os militares reacionários e os civis conservadores que deram o golpe, com o aval da mídia, foram manipulados, estimulados, financiados e empurrados pelos Estados Unidos, que patrocinou, através do IPES e do IBAD, o primeiro mensalão brasileiro para ter seus representantes no Congresso.
4) Jango foi um presidente reformista, competente e à frente do seu tempo.
5) A Comissão da Verdade resolveu apostar no assassinato de Jango porque precisa de um grande fato para coroar suas investigações. Se Jango tiver sido assassinado, hipótese que nunca pode ser inteiramente descartada, dificilmente será como dizem as principais suspeitas de hoje.
6) A mídia que derrubou Jango e deu apoio à ditadura ainda não fez o seu mea culpa nem foi julgada até hoje. Deveria ser investigada pela Comissão da Verdade em capítulo especial. Meu livro será assassinado por essa mídia, com seu silêncio ou com sua fúria, por denunciar o papel dessa imprensa na criação de um imaginário favorável ao golpe, mostrar que esse apoio se estendeu ao longo do regime militar e que, em alguns casos, permanece até hoje com referências à "ditabranda".
7) Hannah Arendt desagradou a todos, a começar pelas vítimas do nazismo.
Hannah Arendt sou eu.
Na banalidade do meu mal.
O mal anônimo.
Meu livro pode ser chamado também de Teses sobre um Homicídio II: o desmonte.
O criminoso – a mídia que derrubou Jango – volta ao local do crime e mata novamente.
Nova vítima: a obra que desvenda o crime.
Deixarei insatisfeitos os defensores da ditadura, por dizer que Jango foi herói, um reformista competente e um homem de fibra, e a esquerda, por dizer que Jango não foi assassinado.
O senso comum transformará essa constatação em queixa.
O maquiavélico me consolará por algum reparo supostamente feito.
Na banalidade do maldição, eu verei tudo isso como um troféu.
Lançado há um mês, sem mídia nacional, "Jango, a vida e a morte no exílio" já está na segunda edição.
Eu sou como as baratas.
Resisto até a radiação nuclear.