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Havia um poema em cada gota de sangue

Só há poesia com pensamento elástico

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No princípio, havia uma gota de sangue em cada poema. Depois, um poema em cada gota de sangue. Por fim, somente poemas ou apenas sangue. Nessa época, jamais definida com números romanos ou arábicos, só o verbo importava. Não se vivia para ter. Muitos menos para aparecer ou parecer. A felicidade não era medida pelo número de “clics”, de “views”, de “likes”, de acessos, de seguidores ou de amigos jamais encontrados presencialmente. Alguns, talvez os mais distraídos, conseguiam ser. Apenas ser. O quê? Aquilo que não cobiçavam, não planejavam, não pretendiam, não calculavam. Aquilo que somente eram até sem o saber. Todos os dias, sem que esses dias constassem em calendários ou em agendas, conjugava-se o verbo haver.

      Havia uma esperança em cada palavra. Salvo quando predominava a melancolia. Rimbaud, o poeta menino, poeta quando ainda era apenas Jean-Nicolas, aquele que abandonou a palavra para traficar armas na África, lamentava-se tão cedo: “Minha vida está gasta. Vamos! Finjamos, banquemos os vadios, ó piedade! E existiremos divertindo-nos, sonhando amores monstruosos, universos fantásticos, lamentando-nos e censurando as aparências do mundo...” Parece tão belo. Até hoje, entre nós, ninguém sabe exatamente o que Rimbaud queria dizer e isso torna ainda mais lindo o que disse, ainda mais que, tendo dito o que disse, silenciou para sempre.

      Não era um comentário sobre a vida. Tampouco uma análise política. O que havia então? Havia algo para ser decifrado e isso fazia todo o sentido, mesmo que o sentido continuasse inalcançável. Amava-se o mistério. Viver não cabia no manual de utilização. Havia um abismo na volta da esquina. Era preciso navegar longe de casa para se proteger do perigo. Cada homem ou mulher podia gritar no retorno: “Sobrevivi”. O cão podia lamber as mãos do dono sem o reconhecer. Essa sobrevivência não era garantia de futuro. Era o passado que contava. Havia uma maneira de ser.

      Não se escrevia para fotografar os fatos nem para condecorá-los. Nessa época, andavam todos atarefados com a sobrevivência. Quem poderia prestar atenção nas frases escritas por um adolescente que parecia estar deslocado dentro do próprio corpo? Havia, porém, uma estranheza que acolhia, sem abrir os braços, e respondia, talvez, a Jean-Nicolas Arthur, que quase perguntava: “Será possível que Ela me faça perdoar as ambições esmagadas – que um fim cômodo compense as idades de indigência, – que um dia de êxito nos adormeça sobre a vergonha de nossa fatal inabilidade”.

      Sempre havia uma gota do suor no rosto dos homens, todos obrigados a justificar pela utilidade o que apenas praticavam por força do desejo. Depois de feito, virava-se a página e ia-se contemplar as asperezas do deserto, montar camelos, vender rifles e sentir a violência do sol. Esta crônica poderia ser uma homenagem a Leonard Milodinow por sua defesa do pensamento flexível.

 

Colecionei espantos, medos e lápis de cor

Aos que vieram depois de mim ficará o luar

Essa abstração da luz na imensidão da noite

E a certeza de que só matei aula para voar

 


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