Hegemonia do campão em Altas Pedras

Hegemonia do campão em Altas Pedras

Narrativas imaginárias sobre realidades

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    Em Altas Pedras, território que se separou de Palomas devido a um abalo esportivo e passou a vagar pelo pampa soprado pelo minuano, João Baldissera foi político inexpressivo durante 56 anos. Lá tudo dura o dobro. Um dia, teve uma ideia absurda, mais do que as de costume: declarar-se antissistema e concorrer ao cargo máximo da república por algum partido. Foi uma risada geral. A cara do sistema no papel de outsider. Era algo tão louco que colou. Uma parte estava disposta, por ideologia, a convencer-se da existência do Papai Noel se isso levasse à vitória. Só precisava de narrativas para convencer eleitores. A estratégia consistiria em assustar a população com o espantalho do lobisomem. Até o novo partido votaria no velho ator.
    JB rompeu com o seu lado, ao qual sempre pertencera, o Campão, em grande estilo: “O Campão é a nata do que temos de pior”. Parecia piada. Mais uma vez, colou. Na sequência, para se eleger, prometeu extinguir ministérios, combater a corrupção e governar em nome da transparência. Passados três anos, para tentar se reeleger, JB revolveu novamente virar o jogo: abraçou-se ao Campão, recriou ministérios extintos, defecou para pedidos de esclarecimentos sobre denúncias de corrupção e saiu do armário: “Eu sempre fui do Campão. Nasci lá”. Alguns eleitores ficaram confusos. Velhas raposas explicaram: “Isso é política”. Ah, bom! O governo de JB é sustentado pelo partido da época do regime de exceção, que se multiplicou em, ao menos, três, embora ninguém note qualquer diferença. Parte do partido admitido pela ditadura para fazer oposição também virou situação. É o que está sendo chamado de doença senil do oportunismo infantil.
Na época, os generais mandavam. Agora, obedecem. Ou são demitidos. Na verdade, são demitidos de qualquer forma, especialmente se o Campão precisar de espaço. Quebra de hierarquia? Metamorfoses. JB busca desesperadamente um pretexto para dar o golpe. Faz parte do seu imaginário. Implicou com as urnas eletrônicas criadas por militares para uso exclusivo de Altas Pedras. Um dos seus subordinados teria ameaçado: ou tem voto impresso ou não tem eleição. O recado era menos para o Congresso Nacional do que para as tropas aquarteladas. Vulgo balão de ensaio. Parece que não colou. O emissor negou a mensagem.
O jogo está sendo jogado. JB voltou a ser o que era sem nunca ter deixado de ser. É impressionante a mutação. Não se vê coisa alguma por fora. Nem por dentro. O efeito é devastador. Tanto que qualquer referência a estelionato eleitoral é rechaçada como uma narrativa sem sentido. Em linguagem de árbitro de futebol um especialista teria explicado que JB foi da posição A para a B e voltou desta para a A antes de ficar impedido. Ou para não cair na armadilha do impedimento.
Não é preciso dizer que Altas Pedras tem funcionamento próprio e que nada do que acontece em outros lugares tem qualquer semelhança com a sua realidade. Em Altas Pedras quem tomou ivermectina não parou mais. Morreu sem um só piolho e decidido a repetir a sua escolha. Uau!

 


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Correio do Povo
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