Confesso que (sobre)vivi
Estarei em Santa Cruz do Sul neste final de semana. Hoje, à noite, lançarei “Jango, a vida e a morte no exílio” na Feira do Livro. Amanhã, farei parceria com meu velho amigo Celso Dias. Ele lança seu livro de contos “O homem que fumava dois cigarros ao mesmo tempo” e eu relanço, 22 anos depois, meu “A noite dos cabarés”, ambos pela Pradense. Celso é um contista minucioso de cenas de cotidiano. Sabe captar a eternidade do instante. Joga com situações existenciais em lusco-fusco. Agarra momentos de iluminação ou escuridão total. Está à espreita da vida.
“A noite dos cabarés” é para mim uma viagem no tempo. Eu tinha menos de 30 anos quando fiz uma série de reportagens sobre pensões, bordéis, barbearias, salões, abrigos para moradores de rua e outros lugares cheios de histórias da pulsação diária de Porto Alegre. Saíamos pelas noites, Cláudia, minha namorada, eu e o fotógrafo Paulo Dias. Estávamos no final dos anos 1980, começo dos anos 1990. O Brasil agitava-se depois do longo pesadelo da ditadura. No bairro Bom Fim, meu centro principal de observação, “tribos” de jovens mostravam as suas roupas, as suas atitudes, suas expectativas e suas linguagens.
Desde aquela época, quando fazíamos mestrado em antropologia, Celso Dias e eu trocamos impressões sobre literatura, futebol e filosofia. Celso acha que não se deve marcar o cobrador do escanteio no futsal. Eu penso o contrário. É matemático. Sobram quatro para marcar três adversários em posição de conclusão a gol, pois o goleiro adversário não vai ao ataque nesse momento. Celso joga muito, dribla, faz gols de letra. Eu concluo melhor. Eu queria ser o repórter com olhar antropológico. Celso era pós-moderno. Eu era moderno. Acho que trocamos de posição por influência recíproca. Ele já buscava a narrativa sintética das contradições e dos paradoxos do homem no dia a dia. Éramos jovens. Os tempos, de fato, eram outros. A prova disso é que o prefácio do meu livro foi feito por Luis Fernando Verissimo, de quem eu me tornaria o único desafeto e uma nota de rodapé na sua biografia.
O gosto pelos descobrimentos já me dominava naqueles dias. Tentei resolver uma das questões mais controvertidas da história do Rio Grande do Sul, junto com as questões do massacre de Porongos e da imortalidade do Grêmio: saber se havia ou não quartos no Maipu. Provei que sim. Resolvido esse enigma, fiquei algum tempo desasado e decidi morar na França, de onde voltei disposto a brigar com meio mundo. Consegui. Felizmente não briguei com o Celso. Quando fui declarado maldito pela primeira vez, sobraram tão poucos companheiros que mal dava para formar um time de futebol de salão. Fizemos novos amigos. Jogamos juntos até hoje: Já Morreu, Cipriano, Cristiano, Tiago Branco e Tiago Negão, dois que andam sumidos, mas vão voltar, Noquinha, Charles, Edson e outros. Nos contos de Celso, encontro gente como a gente.
Esses lançamentos em Santa Cruz renovam um pacto de amizade. Quando eu fui reprovado em antropologia, Celso fez uma grande frase: “Fui péssimo para o teu currículo, mas ótimo para a tua biografia”. Confesso que sobrevivi.