Guy Debord suicidou-se.Era um dos poucos a poder gabar-se de ter acertado na sua descrição da sociedade.
Um verdadeiro maldito não se suicida.
Publica novos livros.
Já publiquei o mais maldito dos romances das últimas décadas, o solitário "Solo".
Já publiquei o mais maldito dos livros de História, o iconoclasta "História regional da infâmia".
Agora publico, como um dente de ouro na boca de um intelectual da Zona Sul do Rio de Janeiro, o mais maldito dos ensaios, "A sociedade midiocre, passagem ao hiperespetacular, o fim do direito autoral, do livro e da escrita".
Não terei a capa da Veja nem a primeira página da Folha de S. Paulo.
Nem poderia.
Cachorros mortos não se levantam para saudar que lhes descreve a decadência.
Um maldito é um pistoleiro solitário que uiva para a lua.
A sua glória é a satisfação de estar certo contra tudo e contra todos.
Modestamente.
Lançamento, hoje, 19h30, na Palavraria (Vasco da Gama, 165).
Tese 4
Na sociedade moderna, da democracia representativa, vivíamos por delegação. Na sociedade do espetáculo, passamos a viver por procuração, deixando aos nossos ídolos a tarefa de gozar ou de sofrer por nós, reservando-nos o direito de trocá-los por outros a qualquer momento. Na sociedade “midiocre”, vivemos num permanente reality-show no qual representamos os nossos delegados com a mesma infidelidade e imitamos os nossos ídolos com a mesma volubilidade. Abandonamos a ideia de corrente e aderimos ao cabo. Por fim, caímos na rede. Ainda temos astros. Podemos segui-los por satélite ou pelo twitter e pelo facebook. Mas mudamos de órbita: saltamos da tela total para a totalidade da tela. Antes, vivíamos por um fio. Agora, nem isso. A invisibilidade como consequência do excesso de visibilidade exige novos mecanismos de descobrimento e desconstrução. A compreensão do novo imaginário depende do desvendamento de uma teia de palavras que se complementam e contradizem.