Homens complicados
Nada mais chato do que desabafo? Mas é instrutivo. Acompanhei esta conversa num lotação sem assalto.
– Perdi minha mulher.
– Ih! Quando foi isso?
– Agorinha.
– Puxa. É recente.
– Demais.
– Como foi?
– Muito rápido.
– De que morreu?
– Não morreu.
– Não?
– Não. Antes fosse.
– Queria que ela tivesse morrido?
– Teria sido melhor.
– Ai, meu Deus! Vira essa boca pra lá.
– Ué! Nunca quis que a sua mulher morresse?
– Não, claro que não.
– Você não a ama de verdade.
– E você?
– Que tem eu?
– Você deu a entender que ela tinha morrido.
– Falei que perdi minha mulher.
– Então?
– Então o quê?
– Não fica parecendo que ela morreu?
– Antes fosse, já disse.
– Foi embora com outro?
– Como assim? Está sabendo de alguma coisa?
– Eu não. Mas...
– Suspeita da Sônia? Acha que ela seria capaz?
– Eu não suspeito de ninguém. Você falou que perdeu sua mulher. Eu achei que ela tinha morrido. Aí você disse...
– Você é sempre tão explicado assim? Fica sempre botando minhocas na cabeça dos amigos? Isso é maledicência, hein?
– Maledicente, eu? Então sua mulher não se foi com outro?
– Se tivesse ido, estaria morta para mim.
– Perdeu sua mulher num shopping então?
– Você sempre pensa mal da mulher dos outros?
– Eu não penso na mulher dos outros.
– Ah, conta outra. Todo mundo pensa.
– Então você pensa na minha mulher?
– Também não exagera, Pedrão. Aí não dá.
– Como não dá? Que história é essa, meu? Está dizendo que não vale a pena pensar na minha mulher?
– Não, não é bem isso, mas...
– Mas...
– Não vale a pena pensar numa gostosona daquelas.
– Então é isso que você pensa da minha mulher?
– Pô, acabei de dizer o contrário.
– Está tentando me confundir?
– Pó, assim não dá: se eu penso na sua mulher você se aborrece. Se eu não penso, você se aborrece também.
– Com mulher é assim.
– Assim como?
– Legal é quando todo mundo quer a mulher da gente. Dá um baita orgulho. Vai dizer que você nunca sentiu isso?
– Ficou louco?
– Fico louco de raiva quando sinto que todo mundo deseja a minha mulher. Está aí uma coisa que eu não aturo.
– Você acabou de dizer o contrário.
– Pois é!
– Como pois é?
– É bom quando é ruim.
– Você deseja a minha mulher?
– Que é isso, cara?
– Ah, vai dizer que não vale a pena desejar a Sônia?
– Deu, cara.
– Você conhece alguém que não deseja a Sônia?
– Não conheço o mundo todo.
– Mas conhece todo mundo. Quer dizer, todo mundo que a minha mulher conhece, não é? Conhece o João, o Paulo...
¬– Não conheço a sua mulher, cara.
– Como não conhece?
– Conheço assim, de passagem. Não conheço como era conhecer na bíblia. Fulano conheceu beltrana. Era crã.
– Mas queria ou não conhecê-la assim?
– Não a conheço e não vou conhecer. Chega.
– Também não conheço mais a Sônia. Eu a perdi.
– Por quê?
– Ela me achava e eu meus amigos meio complicados.