Juremir Machado da Silva

Homossexualismo nas forças armadas

Homossexualismo nas forças armadas

Luis Buñuel ajudou a pendurar Guernica na parede. Mas jamais gostou da obra-prima de Picasso. Chegou a pensar, junto com amigos, em explodi-la. Bacana, diria um carioca. Quer dizer, um carioca iconoclasta. Buñuel reconheceu que sempre teve um espírito mais destrutivo do que construtivo. Seria mais capaz de vibrar com a implosão de um museu do que com a inauguração de centro cultural. Estou com ele. Destruir pode ser muito legal. Nada mais insuportável do que um fã absoluto com sua ânsia de elogiar. No fundo, todo fã absoluto é um idiota triste. É o cara que diria algo assim para Buñuel:
– Quem é você para criticar Picasso.
Ou, o que é muito pior, o cara que diz assim:
– Picasso é Picasso.
Mas não era. Todo fã absoluto é chato. Precisa ser espancado de vez em quando. Os fãs absolutos de Chico Buarque costumam ser grandes malas. O jovem Salvador Dalí saiu-se com uma muito boa diante dos seus examinadores na escola de Belas Artes. Algo assim:
– Não reconheço em ninguém aqui o direito de me jular.
Esse pessoal era de faca na bota. Buñuel foi amigo dos surrealistas. Um dia, André Breton lamentou-se com ele:
– O escândalo já não é mais possível.
No Brasil, ainda é.
Arruda que o diga.
É escandaloso também que um general homofóbico e anacrônico afirme que homossexual não pode servir nas gloriosas Forças Armadas brasileiras.
Por que não?
Eu não acredito em opção sexual. Acho que cada um descobre a sua preferência sexual. De que direito alguém pode determinar a sexualidade dos outros? Por que um homossexual não teria voz de comando? O tal general apenas exprimiu o reacionarismo das forças armadas. É assim no Brasil e também nos outros paises. Só que é uma guerra perdida. Não há mais espaço para a discriminação. O jogo é outro. Buñuel escandalizou-se nos anos 1920 quando soube que seu amigo Lorca era homossexual. Mas soube aceitar e, mais tarde, sepultar seu preconceito. Quase cem anos depois, no entanto, o escândalo continua por toda parte, mesmos nos Estados Unidos, arrancando aplausos pretensamente sensatos e comentários patéticos.
Ainda bem que Madonna já reservou mesa numa boate gay do Rio de Janeiro. Essa turma está aqui pertinho, no hotel Fasano, não mais de cinco quadras daqui. É uma celebridade atrás da outra. Vai chegar o Leonardo Di Capri, ex da Gisele Bundchen. Para quem gosta de tietagem é uma maravilha. A grande maravilha, porém, é a atmosfera de liberdade de comportamento que toma conta da cidade.
Há outros escândalos. O Rio de Janeiro tem mais de 500 favelas. A policia pacificadora está em menos de 50. O resto é terra de gangues e de milícias. Esse, no fundo, é sempre o escândalo menor. O maior, pasmem, foi revelar agora. Preparam-se, pois é uma revolução fantástica: o grande escândalo é a existência de 500 favelas.