Zero em economia
Perguntemos a uma criança ou a qualquer adulto minimamente informado: qual o grande problema do Brasil? A resposta será esta sem a menor hesitação: a economia. Subtende-se, por exemplo, que a criação de empregos depende do programa econômico. Até Luciano Huck e outros apresentadores de programas de auditório sabem disso. A conclusão lógica só pode ser uma: o país precisa de um presidente que entenda algo de economia. Jair Bolsonaro lidera as pesquisas de intenção de votos quando não há candidatura de Lula na parada. Bolsonaro discursou para empresários. Diante do PIB, declarou não entender de economia.
Dez vezes os homens da economia aplaudiram o candidato que se autodeclara ignorante em economia. Bolsonaro disse com imodéstia:
– Sou capitão do Exército, sou artilheiro. Mas de economia... eu não estudei economia. Será que nós temos que entender de tudo?
Um empresário qualquer, ou em situação normal de temperatura e pressão, teria respondido sem aplaudir e sem aceitar a confissão:
– De tudo, não. Só do essencial. Economia é essencial.
O capitão que confessa sem constrangimento não entender de economia afirmou, no entanto, que a crise brasileira foi produzida por economistas. Questionado sobre educação, o artilheiro soltou isto:
– Não quero falar do que não domino.
Mesmo sem entender de economia e educação, Bolsonaro agradou.
– Tem que fazer valer a vontade dos senhores – declarou ao PIB.
Os aplausos retumbaram como granizo. A fala do candidato revelou, outra vez, a sua visão sobre o papel da mulher na sociedade.
– Se nós temos de nos socorrer da esposa e dos filhos para administrar uma casa, quanto mais para administrar um país.
Por que um homem ignorante em economia e em educação entusiasma a elite econômica de um país democrático? Será por tiradas como esta?
– Vou botar generais nos ministérios, sim. Qual o problema? Os anteriores botavam terroristas e corruptos e ninguém falava nada.
Ou se trata de uma adesão comportamental pelo compromisso do candidato de combater os terríveis males do politicamente correto expresso numa pérola em defesa do direito ao divertimento irrestrito?
– Hoje estão tirando nossa alegria de viver, não podemos mais contar piadas de afrodescendentes, de cearenses, de goianos.
A hipótese mais provável para tantos aplausos possivelmente tenha a ver com uma postura que o PIB costuma rotular de pragmática:
– Os trabalhadores terão de escolher entre ter menos direitos e emprego ou todos os direitos e nenhum emprego.
Encurralado no seu excesso de sinceridade, Bolsonaro tentou um drible, que poderia ser considerado uma queda com descarada simulação:
– O presidente é um técnico, não vai jogar bola, entrar em campo, tem que ter discernimento, humildade e força para buscar soluções.