Muitos gostam de falar da importância da igualdade de oportunidades.
É um mantra. Uma bela ideia. O único detalhe é que praticamente não existe. Dois jovens que prestam vestibular na mesma sala estão em pé de igualdade? Um vem de uma família desfavorecida, vivendo com pouco mais de um salário mínimo. O outro, de uma família abastada, tendo estudado nas melhores escolas privadas e viajado em quase todas as férias. Salvo se o primeiro for um gênio, a disputa será desleal por falta de igualdade na preparação. Seria o caso de dar condições equivalentes nesse ponto de partida. Ainda não se fez.
Falo disso com tranquilidade e apreço pela ideia. Nunca fui marxista, tendo sido anarquista aos 20 anos de idade e socialdemocrata sueco desde os 40. Quero que o Brasil se transforme numa Suécia tropical com samba, caipirinha e drible. Não desdenho certos clichês. Só não me contento com eles. Em “Sapiens, uma breve história da humanidade”, o historiador israelense Yuval Harari, que está longe de ser comunista, jogou algumas bolas nas costas de seus admiradores: “É um fato comprovado que a maior parte dos ricos são ricos pelo simples motivo de terem nascido em uma família rica, enquanto a maior parte dos pobres continuarão pobres no decorrer da vida simplesmente por terem nascido em uma família pobre”. Não se escolhe onde nascer.
A loteria do nascimento é implacável. Não há qualquer mérito em vir ao mundo em berço privilegiado. É sorte. Também não há mérito em ser inteligente, algo que não se pode conquistar. Harari disparou mais alguns tiros certeiros: “Com frequência, a discriminação tende a piorar com o tempo, e não a melhorar. Dinheiro gera dinheiro, e pobreza gera pobreza. Educação gera educação, e ignorância gera ignorância. Os que foram vítimas da história uma vez tendem a ser vitimados novamente. E aqueles que a história privilegiou tendem a ser privilegiados novamente”. A sociologia chama isso de reprodução. A recompensa aos inteligentes e talentosos deve ser dada menos pelo mérito e mais pelo benefício aportado para a sociedade. Contra a falta de igualdade de oportunidade parece só haver um jeito: políticas de compensação. Ainda mais que reformas estruturais são lentas ou não passam de objeto de discursos inflamados de campanhas eleitorais.
A história é complexa. Nem tudo que reluz é fruto da ética e do mérito, salvo se for o mérito da crueldade. A acumulação primitiva do capital tende a ser bárbara. O tráfico de escravos, por exemplo, foi uma operação capitalista. Yuval Noah Harari crava: “O comércio de escravos não era controlado por nenhum Estado ou governo. Foi uma iniciativa puramente econômica, organizada e financiada pelo livre mercado de acordo com as leis da oferta e da demanda. As empresas privadas de comércio de escravos vendiam ações nas bolsas de valores de Amsterdã, Londres e Paris. Europeus de classe média à procura de um bom investimento compravam essas ações”. E dormiam tranquilamente o sono dos comerciantes de vidas alheias.