Juremir Machado da Silva

Inocente tecnológico e ceticismo

O homem sonha em exterminar aquilo que faz o lado humano: a subjetividade.

O inocente tecnológico acredita que alcançará esse objetivo graças às máquinas.

Todos os dias, venera da geladeira ao computador e imagina que será mais feliz e viverá numa sociedade mais democrática graças aos algoritmos. O novo deus do inocente tecnológico é o aplicativo. O jogo, porém, só é interessante por não conseguir eliminar o imprevisível. O inocente tecnológico jurava que o VAR, o árbitro de vídeo, acabaria com as dúvidas no futebol. Foi pênalti ou não foi pênalti? O VAR daria a resposta sem pestanejar e sem margem de erro. Nada disso. O VAR, na Copa da Rússia, já mostrou seus limites.

Depois do confronto entre Suécia e Alemanha já corre o boato que o VAR é alemão. Brasileiro não é. Não viu falta em Miranda. Não deu pênalti em Neymar. O inocente tecnológico nunca tem dúvidas. Por isso costuma ser jovem. É sabido que os jovens costumam ter mais certezas que os velhos. O inocente tecnológico acredita no VAR, na ciência do futebol e na matemática dos esquemas táticos. Odeia Nelson Rodrigues. O velho cronista reacionário sabia da existência do imponderável. Denunciava o nosso “complexo de vira-lata” e mostrava a mão do “imponderável de Almeida” nas coisas. Na era do VAR, com seu olho implacável, Nelson estaria superado.

Ledo engano.

Para desespero do inocente tecnológico o VAR poderá ser o novo aliado de um personagem que o cronista considerava fundamental no futebol: o “juiz ladrão”.

Em outros esportes o VAR é útil. Para dizer bola dentro ou bola fora ele parece infalível. O futebol é mais complexo. Mexe com categorias que nem os filósofos gregos resolveram bem, como a intencionalidade. O inocente tecnológico jamais cede. Ele conta com o tempo para impor a sua verdade de laboratório. Como sou adepto da teoria conspiratória, desconfio que o VAR ainda dará algum título indevido para o Corinthians. O inocente tecnológico ri disso. Ele crê em coisas impalpáveis e incontestáveis como o planejamento rigoroso do futebol alemão. Parece que a derrota para o México e a vitória no rabo do tempo contra a Suécia foi planejada minuciosamente. Assim como o 7 a 1 no Brasil. O inocente tecnológico não se abala. Vive nas telas.

Para o inocente tecnológico o programador é a peça essencial de cada sistema. Num jogo, portanto, o treinador é quem decide tudo. As peças em campo apenas executam os movimentos que ele planeja com ajuda dos analistas de desempenho. Por isso, prefere o passe ao drible. Para o inocente tecnológico o drible é um resquício da era da subjetividade e do tempo das crônicas de Nelson Rodrigues. Chegará o dia, sonha o inocente tecnológico, em que o resultado será determinado antes do jogo graças a um algoritmo capaz de analisar as estratégias programadas pelos treinadores e antecipar os movimentos das peças.

Eu admiro o inocente tecnológico. Sonho em fazer parte do clube. Estou velho. Preciso de alguma certeza para meus últimos anos, além de estar convicto de quem foi pênalti em Neymar contra a Costa Rica.