Juremir Machado da Silva

Jabuticaba: golpe por adesão

      Não há como ficar pessimista. Agora vai! Basta olhar as manchetes dos jornais. Na lista dos favoritos à reeleição para o Senado estão Ciro Nogueira (PP-PI), Edison Lobão (MDB-MA), Eunício Oliveira (MDB-CE), Garibaldi Alves Filho (MDB-RN), Renan Calheiros (MDB-AL) e Jader Barbalho (MDB-PA). O Brasil é um país generoso. Perdoa antes mesmo da condenação. Somos profundamente originais.

– E aí, limpeza! – exclama um.

– Beleza – diz outro.

– Maravilha – completa um terceiro.

– Tamu junto – afirma um quarto.

É quase impossível não se reeleger com a biografia desses caras. A folha corrida – opa, o currículo – dessas figuras enche vários volumes de romances policiais. Simenon não faria melhor. A renovação é certa. Eles vão falar em valorização da experiência. Melhor ouvir do que ser surdo. Aécio Neves também vai emplacar em Minas Gerais. Será deputado federal. Não se encontrou até agora maneira de apresentar-lhe uma cela. Nem mesmo para ser logo solto por Gilmar Mendes. O algoritmo do STF só pode ser tucano. Parece que sempre dá Gilmar com o PSDB.

A gente ouve de tudo. Dá uma agonia. Acho que vou andar por aí com fones de ouvido para me proteger. Ouvi esta conversa de crianças:

– Qual o coletivo de lobo?

– Alcateia.

– Cão?

– Matilha.

– Camelo?

– Cáfila.

– Político?

– Quadrilha.

Puxei a orelha da gurizada. Tentei mostrar-lhes que desacreditar a política faz mal para a democracia. Eles me olharam piedosamente.

– Fala sério, tio.

– Estou falando sério, meninos. Muito sério.

– Não sacaneia, tio.

– Que linguagem é essa, guri?

– Ah, vai tio, tu acredita em Papai Noel.

As crianças de hoje são adultos precoces. Os adultos são adolescentes eternos. Prova de nossa originalidade é o diálogo de um estrangeiro perplexo e cheio de dúvidas com um brasileiro tranquilo sobre o propalado golpe acontecido no país em 2016 e continuado por outros meios até hoje de acordo com uma das narrativas disponíveis:

– Mas foi golpe mesmo?

– Sem dúvida alguma.

– Tem certeza?

– Absoluta.

– Como foi possível uma conspiração entre justiça, mídia, parlamento?

– Simples. Foi como jantar da firma, por adesão.