Juremir Machado da Silva

Jango, o presidente que morreu no exílio

Quarenta anos sem Jango

  Em 6 de dezembro de 1976, em Mercedes, na Argentina, morria João Goulart, o presidente brasileiro deposto pelo golpe midiático-civil-militar de 1964. Jango não foi assassinado. Morreu de infarto no miocárdio como consta em seu atestado de óbito, o qual, para o meu livro Jango, a vida e a morte no exílio (L&PM), resgatei na documentação argentina da investigação sobre sua morte realizada em 1982. Rezava a lenda que a causa da morte havia sido suprimida. Era apenas uma confusão entre atestado de óbito e registro em cartório. Jango foi um grande presidente. Ousou tentar mudar o Brasil com as suas “reformas de base”. Rico e bem-sucedido, discípulo de Getúlio Vargas, apostou numa conciliação entre capital e trabalho que não interessava aos ricos da sua época.

Virou um traidor da classe.

Passados 40 anos da sua morte, a imagem de Jango, deturpada por historiadores conservadores e pelo olhar da extrema-esquerda do seu tempo, começa a mudar. Jango foi homem generoso, com grande poder de escuta, que se sensibilizou com a miséria do povo brasileiro e resolveu implementar, com apoio de um ministério de homens competentes, como Darcy Ribeiro e Celso Furtado, um programa de distribuição de renda e de desconcentração de terras. Começou a cair, em 13 de março de 1964, quando anunciou a reforma agrária. Nada era mais fundamental para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Foi acusado pelos reacionários fundamentalistas de ser comunista. A mídia tratou de preparar o caminho para a sua queda desqualificando-o como bêbado, analfabeto, corrupto, preguiçoso e incompetente. Jornal do Brasil, O Globo, Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo trabalharam arduamente para tirá-lo do poder. Continuam os mesmos.

O avanço da ditadura no Uruguai levou Jango a procurar refúgio na Argentina. Estudava mudar-se para a Europa. A doença, que o perseguia desde os anos 1960, não deixou. Sedentário, acima do peso, fumante, apreciador da boa e gordurosa mesa, estressado e triste, saudoso do Brasil, João Goulart faleceu na cama, ao lado da mulher, Maria Thereza, na sua estância argentina. Pouco tempo antes, havia se consultado com seu médico, em Lyon, na França. Parecia tudo bem. Não era verdade. Nesta edição do Caderno de Sábado, a família – a viúva Maria Thereza, o filho João Vicente e o neto Christopher – avaliam o legado de Jango. João Vicente Goulart está lançando Jango e eu, memórias de um exílio sem volta (Civilização Brasileira), livro no qual detalha a forte relação que teve com o pai nos anos de exílio.

Maria Thereza relembra o homem, o marido, o político, o exilado. Conclui que ele morreu de morte natural. Christopher, filho de João Vicente, nascido em Londres, para onde Jango enviara a prole, mostra sua imensa admiração pelo avô. O Caderno de Sábado brinda os seus leitores com dois fragmentos do livro de João Vicente Goulart e com a íntegra de um documento original, uma carta de Jango ao amigo Serafim Vargas, de São Borja, com quem o exilado se correspondeu fartamente. Jango aparece de corpo inteiro nessa carta. Clama por reconciliação, nada quer para si, sonha com a volta da democracia ao Brasil, declara seu amor pela família e crê, ainda, num fim rápido para o pesadelo brasileiro começado com o golpe de 1964. Aos poucos, as ilusões feneceram. Restou o cotidiano. Até a morte no exílio.

 

Entrevista/Maria Thereza Goulart

Considerada a primeira-dama mais bonita da história do Brasil, Maria Thereza Fontella era quase uma menina quando se casou com João Goulart. Em 1964, foi para o exílio em Montevidéu com o marido e os dois filhos do casal, João Vicente e Denize. Nesta entrevista para o Caderno de Sábado, Maria Thereza Goulart relembra os anos de desterro, a morte de Jango e o seu legado para o povo brasileiro.

Caderno de Sábado – Qual é na sua mente, passados agora 40 anos da morte de Jango, a imagem mais forte dos 12 anos de exílio?

Maria Thereza Goulart – Eu não sou de ficar remoendo o passado. Vivo o presente. Não gosto de me ver como vítima do passado. Procuro focar nas coisas boas. O exílio foi triste, mas suportável no dia a dia. Criei os meus filhos no Uruguai. Vivi intensamente para eles. Ao mesmo tempo, acompanhei a trajetória do Jango nesse tempo todo fora do país. Vi a tristeza que tomava conta dele em certos momentos. Pude sentir o quanto ele desejava voltar para o Brasil. Isso era visível até no olhar dele em certos dias. A imagem mais forte dessa época, aquela que não tenho como apagar, aquela que inevitavelmente ressurge, por óbvio, é a da morte dele, ao meu lado, na Argentina. Fomos juntos para lá. Ele estava diferente na viagem, mais cansado, triste. Depois do que aconteceu, eu me senti profundamente sozinha.

CS – Qual a imagem mais forte de Jango no exílio?

Maria Thereza Goulart – A da tristeza dele por não poder retornar ao Brasil. A vida para nós, em Montevidéu, seguiu. Fizemos muitos amigos. Cuidamos da educação dos filhos, que eram pequenos. Tratamos de nós mesmos. No começo, foi muito difícil. A saída do Brasil ainda me parece uma parte muito dolorosa. Tudo era incerto, tenso, repentino. Depois, já instalados no Uruguai, conseguimos respirar um pouco e começamos a organizar a vida. Havia muito o que fazer. O Jango mergulhou nos seus negócios. Eu tive uma loja. Montevidéu se tornou o nosso lugar. Até hoje sinto o Uruguai como a minha segunda pátria. Mas o tempo foi passando e Jango se angustiando. Sonhava em voltar. Não falava muito sobre isso. Não fazia planos. Mesmo assim, dava para perceber a sua tristeza. Jango nunca se conformou.

CS – A senhora voltou ao Brasil algumas vezes durante o exílio?

Maria Thereza Goulart – Sim, eu pude fazer isso. Voltei três vezes. A primeira vez foi para o casamento do meu irmão. Minha filha Denize foi aia. A segunda vez foi para o casamento da Ieda Maria Vargas. Jango era padrinho. Vim como representante dele. A terceira vez foi quando meu pai adoeceu e precisou ser submetido a uma cirurgia. Nessas três vezes, estive em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. A vida para mim no Uruguai corria tranquila. Eu não ficava todo tempo pensando em voltar para o Brasil. Estava com minha família, tinha amigos, muita coisa para fazer, vivia absorvida em nosso cotidiano. Sempre que posso, volto ao Uruguai. Faz parte da minha vida. Eu amo.

CS – Para Jango era diferente?

Maria Thereza Goulart – Sem dúvida. Apesar de viajar muito e de ter muitos negócios, Jango nunca deixou de pensar no retorno. Ele queria a redemocratização do país. Nesse sentido, pensava politicamente. Mas havia também o seu lado humano, o seu profundo apego ao Brasil.

CS – As viagens à Europa foram momentos especiais no exílio?

Maria Thereza Goulart – Fizemos algumas viagens lindas à Europa. Eu sempre adorei viajar. Visitamos muitos lugares. Havia grandes alegrias. O exílio não foi uma dor permanente como se poderia pensar.

CS – Qual o legado de Jango como político?

Maria Thereza Goulart – Tudo que ele tentou fazer e não foi realizado até hoje. Jango foi derrubado do poder pelo que se empenhou em fazer de bom para o povo brasileiro. Quando vejo o Brasil atual a deriva, sem rumo, penso no quanto Jango quis levar o país a dar um salto de qualidade. Era uma coisa tão ousada e importante nas políticas sociais, as chamadas reformas de base, que até hoje muito daquilo não foi implementado. Jango teve muita visão. Pagou alto preço por isso.

CS – Leu o livro de seu filho João Vicente sobre Jango e o exílio?

Maria Thereza Goulart – Li. Fiquei emocionada. João Vicente conseguiu me fazer viagem ao passado. Está muito bem escrito. Ele se lembra de coisas que eu tinha esquecido. É interessante ver o que o marcou. São tantas histórias, tantos momentos incríveis, tanto para lembrar.

CS – Há passagens chocantes no livro de João Vicente. Como foi receber um filho de 16 anos de idade depois de torturado?

Maria Thereza Goulart – Aos poucos o Uruguai foi mergulhando na violência. O que aconteceu com João Vicente não nos chocou totalmente, embora tenha sido horrível, por ter se passado numa situação de tensão cada vez mais comum. Chegou um momento em que até rir na rua era perigoso. Teve um dia em que eles estavam rindo numa rua, falando coisas, brincando, e chegou um policial para averiguar. Quis saber de que estavam rindo e ameaçou prendê-los se não parassem. Fomos conhecendo outro contexto. Jango achou que hora de mudar.

CS – Depois de 40 anos e de tentas investigações, hipóteses, reviravoltas e até da exumação do corpo de Jango qual a sua convicção sobre as causas da morte dele em 6 de dezembro de 1976 na Argentina?

Maria Thereza Goulart – Acho que Jango cansou. Na viagem para Mercedes, senti que ele estava exausto. Perguntei o que estava sentido. Desconversou. O coração de Jango não aguentou tudo aquilo.

CS – Morte natural então?

Maria Thereza Goulart – sim, morte natural.

 

Entrevista/João Vicente Goulart

Quando João Goulart foi derrubado do poder e precisou se exilar no Uruguai seu filho João Vicente tinha apenas sete anos. O menino cresceu em Montevidéu. Acompanhou o pai nas andanças por suas fazendas e em viagens à Europa. Viu a tristeza de Jango nos momentos de saudades do Brasil. Adolescente, foi preso. Quarenta anos depois da morte do pai, na Argentina, João Vicente Goulart lança o livro Jango eu, memórias de um exílio sem volta (Civilização Brasileira) e faz uma detalhada revelação: foi torturado aos 16 anos. Neste entrevista para o Caderno de Sábado ele se revela um pouco mais.

 

Caderno de Sábado – Jango e eu, memórias de um exílio sem volta tem um tom de reverência a um grande político, de admiração por um pai muito especial, subitamente arrancado dos palácios e do poder, e de confidências sobre um amigo. Qual a imagem prevalece no momento em que se completam 40 anos da morte do presidente João Goulart?

João Vicente Goulart – Jango e Eu surge de um mergulho ao passado no qual me propus reviver memórias, já longínquas, porém de uma necessidade muito profunda. Eu tinha de estar de alguma forma de novo perto daqueles dias de exílio, que apesar de muito duros, quando fazia o transporte das imagens ao papel, sentia presente novamente a figura humana gigantesca de meu pai, o qual me fez, de certa maneira, viver aqueles momentos e estar novamente ao seu lado; ao lado do pai, do político, do ser humano inolvidável, matando devagarinho as saudades enquanto brotavam as letras, as palavras e os parágrafos que iam construindo o livro. Depois de quarenta anos do desaparecimento do meu pai, escrevendo, ele se fazia, em mim, novamente vivo.

CS – O senhor chegou ao exílio com sete anos de idade, foi preso e torturado no Uruguai aos 16 e perdeu o pai aos 20. Essas experiências forjaram o seu percurso como homem? Ainda se pergunta por que, sendo um adolescente, foi torturado?

João Vicente Goulart – Para mim os percursos da vida não são escolhidos por nós, e sim pelo destino, forjados muitas vezes nos desafios da vida e nas consequências frias daquilo que não esperamos, porém temos que enfrentar. O exílio não é uma situação clássica nem comum à maioria das pessoas e isso tivemos de aprender quiséssemos ou não em um terreno diferente, em terras distantes, em ares distintos e em céus com outras cores, com outras geografias e com outros sabores. Fomos crescendo conscientes da luta emancipatória que meu pai tinha travado no Brasil, que a América Latina estaria travando também por uma identidade solidária de nosso continente, contra a opressão, contra as ditaduras, contra o arbítrio e a prepotência covarde da força bruta contra a democracia. A tortura fazia parte em todo o continente da imposição dos métodos praticados por esses covardes que serviam e servem aos grandes interesses dos privilegiados a quem reverenciam. Foi difícil com dezesseis anos passar por isso, mas consolidou meu espírito no sentido de que estamos aqui neste plano para lutar por justiça social, por humanidade e pelo bem coletivo, para que tenha a vida algum sentido de haver passado por aqui. Não tenho mais medos principalmente do destino.

CS – Já havia descrito tão minuciosamente a experiência da tortura, com choques elétricos, em outro momento?

João Vicente Goulart – Não, era uma coisa que ainda tinha que contar. Não sabia com certeza quando, mas esta foi sem dúvida a oportunidade de me libertar dessa memória e de dar algum sentido prático à minha revolta contra a prepotência. Hoje grito com mais força e me alio a todos aqueles que também sofreram com as barbáries da ditadura e me somo: “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”.

CS – O livro aborda muitas histórias da vida de Jango e da sua família no exílio que circulam sem parar, do cotidiano do ex-presidente no Uruguai, seus negócios, suas viagens, suas amizades e até sua relação extraconjugal com a jovem Eva. A ideia é esclarecer pontos obscuros apresentados em outras versões?

João Vicente Goulart – Sempre lidamos com os fatos que outros criam como as “versões do fato”. Faz parte do ser humano, do jornalismo, da mídia e das posições ideológicas de cada um dos lados contarem suas versões. Eu vivi o dia a dia de nossa família, de meu pai, de nossas atribulações, medos e aflições reais de estarmos constantemente perseguidos por uma máquina gigantesca, que é o aparato da ditadura e seus tentáculos, e posso dizer que era isso o mais nos preocupava. Relações extraconjugais, cotidiano de negócios, tomar um whisky e ir ao cassino eventualmente são questões tão menos importantes frente à solidão e ao sofrimento do exílio que só interessam aos detratores, mas que de tão minúsculas frente à luta de um povo, frente à luta da restauração democrática, da liberdade de um povo, tornam-se, se não olhadas do ponto de vista da verdade, apenas balelas de fofoca e de baixo calão difamatório.

CS – Um ponto forte do livro é a narrativa das suas viagens com Jango à Europa onde se davam encontros com grandes intelectuais, políticos e artistas como Glauber Rocha. Nessas idas à França e à Espanha estavam só vocês dois?

João Vicente Goulart – Muitas vezes sim, nas viagens até chegarmos aos destinos europeus, pois saíamos do Uruguay quando necessário para os cuidados médicos que meu pai necessitava. Mas, é claro, quando chegávamos a Paris ou Madrid sempre nos acompanhavam seus amigos, também exilados em uma ou outra capital. Após a chegada formavam-se sempre grupos de conversas que se estendiam horas e horas misturando saudades e paixões brasileiras presas na distância da pátria.

CS – As suas memórias são também um mergulho no avanço das ditaduras no Uruguai e na Argentina nos anos 1970. Quando Jango chegou em Montevidéu acreditava realmente que poderia voltar ao Brasil em seguida? Tinha projetos políticos?

João Vicente Goulart – Ele nunca deixou de ter em mente sua volta ao Brasil e isso é claro envolvia sua movimentação política e sua articulação com os amigos no Brasil. No início pensou sim que o golpe seria mais uma quartelada tupiniquim e que com a eleição de 1965, que não houve, poderia haver uma possibilidade imediata de anistia para aqueles que tinham sido cassados pelo AI-1. Muitos políticos que embarcaram nesse canto do cisne do Castello foram cassados posteriormente, e, a partir daí, sim, a esperança da volta ia se tornado mais e mais remota. É claro que tinha projetos políticos, pois Jango saiu da presidência em 1964 com 45 anos depois de haver, em menos de 20 anos, galgado, sempre eleito democraticamente, praticamente todos os postos políticos, deputado estadual, presidente do PTB gaúcho, deputado federal, ministro do Trabalho, presidente nacional do PTB, duas vezes eleito vice-presidente da República, com mais votos que o próprio presidente, presidente da República, ratificado pelo plebiscito de 1962 e derrubado por um golpe militar que escondeu durante mais de vinte anos a pesquisa que dava a Jango, no dia do golpe, 72% da opinião pública a seu favor segundo o IBOPE de março de 1964. Quem era o rei caído? Quem seria o presidente democrático eleito pelo povo, com significativo apoio de 72% no caso de uma abertura, que teria papel fundamental para o Brasil?

CS – Há muitas histórias deliciosamente constrangedoras para algumas reputações no seu livro. Pelé não teve coragem de ir com os companheiros visitar Jango em Montevidéu?

João Vicente Goulart – Realmente, mais uma vez, apenas relatei fatos reais que aconteceram. No caso, foi o nosso capitão Wilson Piazza o gigante nosso do exílio daquele dia, pois foi ele que levou toda a seleção ao nosso apartamento para visitar Jango, menos o Pelé.

CS – Jango cobrou de Vinicius de Morais a sua falta de engajamento com músicas de protesto? Vinícius não gostou?

João Vicente Goulart – Foi uma conversa. Vinicius fazia uma temporada de shows no Uruguai. Estava hospedado em uma casa em São Rafael, em Punta del Este, e tinha com Jango, na noite anterior, combinado essa conversa no outro dia de tarde. E assim foi, chegamos lá e a conversa se alongou entre vários temas políticos sobre o Brasil e a América Latina. Chegou a hora da música brasileira e Jango estava maravilhado com a nova geração de músicos do Brasil, Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Milton Nascimento e outros que faziam estremecer a ditadura com letras de protesto. Foi aí que Jango perguntou por que ele com a sua grande capacidade não acompanhava a moçada nessa luta; ao que Vinícius respondeu que ele era um poeta do amor. Jango então encerrou a conversa. Não houve briga, apenas discordância de posicionamento.

CS – Fala-se, muitas vezes, de amigos que teriam traído Jango, abandonando-o no exílio. Ivo Magalhães, ex-prefeito de Brasília, é diretamente apontado no livro. Maneco Vargas, filho de Getúlio, levou uma carraspana de Jango por só ter aparecido no Uruguai quando viu uma oportunidade de negócios, a compra de gado para o frigorifico Armour. Mesmo rico e cercado de gente, Jango jamais se acostumou a uma certa solidão do desterro? Era possível sentir isso?

João Vicente Goulart – Jango sempre dizia que o exílio era uma invenção do demônio, pois fazia das pessoas mortos vivos que respiravam, mas não podiam se mexer, ficando sempre à beira da estrada. As desilusões são muitas, de amigos, de alguns familiares até, da incompreensão que sentem os homens quando vivem a solidão e com a impossibilidade da volta. Seus olhos mostravam as dores da pátria distante. O seu olhar distante caminhava atávico como se fosse possível transpor fronteiras e alcançar as coxilhas do seu Rio Grande do Sul. A saudade era muito forte na solidão.

CS – O livro não trata frontalmente das condições da morte de Jango. Por quê? Qual a sua convicção sobre isso hoje?

João Vicente Goulart – Sim, fiz um recorte específico e me ative estritamente do primeiro ao último dia de exílio. A investigação surge depois; quem sabe mais à frente não nos dediquemos especificamente a essa investigação que ainda perdura. Ainda temos questionamentos a esse respeito, principalmente da conduta do Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul. Até hoje não pediu a oitiva dos agentes internacionais Frederick Latrash, Michael Townley e outros relacionados no pedido investigatório. Talvez estejam esperando que morram também, afinal a nossa vida e a de todos tem prazo de vencimento.

CS – Quem foi o maior responsável pela queda de Jango consumada pelos militares: a imprensa, os políticos ou os empresários?

João Vicente Goulart – Todos esses atores, somados às elites brasileiras que não cabem em Miami, e a dura realidade deste nosso país ainda colônia do grande capital e dos privilégios políticos que os traidores da democracia querem e insistem em manter por vias escusas.

CS – Qual o principal legado de Jango?

João Vicente Goulart – A luta tenaz, constante e verdadeira de Jango pela democracia e pela liberdade. Há 52 anos deram um golpe neste país para impedir as reformas de base que Jango queria implementar para distribuir renda entre todos os brasileiros que são os donos deste país, não as elites privilegiadas que impedem esta conquista que ainda não conseguimos. Ainda continuamos a debater Jango, temos muito a debater, temos muito a construir com seu exemplo, muito a lutar sem desistir como ele nunca desistiu do Brasil e de seu povo.

 

Fragmentos de Jango e eu

 

“Em Montevidéu tínhamos sempre muitos encontros com brasileiros, turistas, empresários e políticos. Dom Alonso Mintegui era cônsul honorário do Internacional, time pelo qual meu pai torcia e onde jogara nos juniores em Porto Alegre. Sempre que algum time bra­sileiro ia jogar em Montevidéu, ele conseguia ingressos para mim e alguns amigos, e podíamos ir até o vestiário. Recentemente fui a São Paulo a convite do vereador Ademir da Guia, que resgatou um título de Cidadão de São Paulo, outorgado em 1964, que meu pai não pôde receber por causa do golpe de Estado e lembrei a ele que já o tinha conhecido, no vestiário do Palmeiras no estádio Centenário, no jogo contra o Estudiantes de La Plata pela taça Libertadores.

Nesse jogo entramos no vestiário e até batemos bola com os joga­dores antes do jogo. Mas até em eventos de futebol, em que a política deveria ser dei­xada de lado, acontecem coisas quando se está no exílio. Certa vez a seleção brasileira estava em Montevidéu, hospedada no Hotel Plaza na Plaza Independencia, para um amistoso contra a seleção uruguaia, e os jogadores, então, decidiram ir ao nosso apartamento na Leyenda Patria para levar um abraço do Brasil ao meu pai. Lembro que foi uma festa para os meus amigos, todos queriam ir lá. O capitão Wilson Piazza disse a meu pai:

– Presidente, como vai? Os jogadores queriam vir aqui lhe trazer um abraço. Viemos almoçar no Cangaceiro e resolvemos todos vir até aqui convidá-lo para assistir ao jogo de quarta à noite.

– Eu te agradeço muito, Piazza. Isso para quem está longe de seu país é um gesto inesquecível – disse Jango, sorrindo e com um olhar muito doce.

Piazza, que era uma pessoa bem esclarecida, foi logo se desculpando. Jango não sabia do que se tratava e perguntou:

– Mas o que houve, Piazza? Estou muito contente com a presença de vocês.

– Pois é, presidente, mas peço desculpas pela ausência de nosso Pelé. Ele disse que estava indisposto. Ele é muito medroso nessas questões e tem receio de ser mal interpretado pelos militares brasileiros.

– Não te preocupes, capitão. Só a presença de todos vocês aqui já me deixa muito orgulhoso, e tua coragem mais ainda.

Meu pai entendeu o medo do Pelé, mas eu, não. Só vim a entender depois, porque, na época, mesmo sendo ele um grande ídolo do futebol brasileiro, disse não se importar que o Brasil não tivesse eleições para presidente, governadores, senadores etc., porque o povo brasileiro não sabia votar mesmo. E essa era a mesma justificativa usada pela ditadura. Quarta à noite meu pai não pôde ir ao jogo, mas eu e a turma de amigos fomos ao estádio ver um pedacinho do Brasil que me trazia ainda um pouco de nostalgia.”

*

“Na chegada ao aeroporto do Galeão, o agente da Polícia Federal e os encarregados da alfândega nos transmitiram seus pêsames e deram as boas-vindas ao Brasil. Pensei na ironia que era nossa família não poder retornar do exílio e agora ser bem-vinda para enterrar meu pai. No saguão nos esperavam meu padrinho Riff, Dr. Waldir e Darcy Ribeiro. Nós nos abraçamos e começamos a chorar, mas viram o Chris no colo de Stella e foi uma mistura de alegria e tristeza. Lá já havia um avião fretado esperando para nos levar a São Borja, terra natal de meu pai. O corpo dele por trasladado por terra de Uru­guaiana a São Borja, no dia anterior, e aguardavam nossa chegada para o sepultamento no jazigo da família Goulart.

Durante a viagem, fui conversando com Darcy, Riff e o dr. Waldir, e fui me acalmando, me resignando. As sábias palavras daqueles gran­des amigos de meu pai, suas lembranças de Jango e o exemplo que ele deixaria para as outras gerações me consolavam. Um brasileiro que amou seu povo, que lutou e morreu por ele, que combateu seus detra­tores e que se tornou um grande estadista que quis mudar e reformar o Estado brasileiro com um projeto de nação. Levamos três horas para chegar a São Borja, e o intenso tráfego aéreo na cidade em decorrência da morte de meu pai retardou um pouco nosso pouso.

A primeira pessoa que abracei quando desembarquei foi meu amigo de infância Peruano, que estava trabalhando com meu pai desde que fui morar na Inglaterra. Ele estava na fazenda La Villa, onde Jango morreu, e lhe perguntei se meu pai tinha sofrido. Peruano disse que não, que tinha sido muito rápido.

Depois disso muitas pessoas cercaram o avião e decidimos não ir imediatamente para a igreja. Minha mãe passara a noite toda no velório e estava descansando na casa de seu irmão, Juarez. Fomos até lá para vê-la, pois as saudades e a dor se misturavam e queríamos enfrentar tudo juntos.

Minha mãe nos encontrou na porta da casa de meu tio. Foi lá, ainda dilacerada pela dor de perder o marido, que ela conheceu seu primeiro neto. Num misto de tristeza e alegria, deixou que as lágrimas escor­ressem por seu rosto e que seu olhar se perdesse na ternura dos olhos de Christopher. Parecia estar longe dali, em algum lugar do passado, talvez no dia em que conheceu meu pai, e toda a vida que construíram juntos desde então: o namoro, o casamento, o nascimento dos filhos, a trajetória política, a presidência, o glamour, o exílio e, agora, a morte de seu fiel companheiro. Suportou lado a lado com Jango o destino que os ditadores lhe impuseram, e com altruísmo e dedicação nunca deixou abalar os princípios que sempre guiaram nossa família: o amor pelo seu povo, a liberdade e a democracia.”

*

MEU AVÔ, JANGO

Christopher Goulart

Nesta data tão especial, recordando quarenta anos de falecimento de meu avô Jango, peço permissão aos leitores para remeter inicialmente à data de cinco de outubro de 1976. No Hospital de Hammersmith, em Londres, foi o dia em que o Presidente deposto, João Belchior Marques Goulart, solicitou a um enfermeiro presente para fazer um retrato histórico, numa velha Polaroid, de seu primeiro neto em seu colo que chegava ao mundo. Jango faleceu no dia seis de dezembro de 1976, dois meses após este encontro comigo. Tal recordação restou gravada na nossa única fotografia. Poucos imaginam no Brasil as consequências familiares de um Golpe ou exílio sem volta, que ultrapassam as barreiras geracionais e atingem diretamente aos descendentes dos perseguidos. Experiência que, se bem compreendida, sempre fortalece.

Justamente em razão da deposição inconstitucional de um Presidente da República, sou portador de três nacionalidades (Uruguaio, Inglês e Brasileiro), tendo sido registrado em consulado brasileiro, na Inglaterra. Quis o destino - e o Estado de Exceção Militar-ditatorial, que em minha identidade conste, Naturalidade: Londres. Nacionalidade: Brasileiro. Em suma, nascido no exílio e brasileiro nato, de acordo à Constituição Federal.

Eis algumas fortes razões que me ligam diretamente a um intenso legado, de lutas sociais. Hoje, vivendo em tempos onde origens e tradições políticas nem sempre são atrativos, posso afirmar com muita clareza que me honra ter uma causa. Vou além: penso que a maioria dos homens públicos de hoje não tem causa nenhuma. Obviamente jamais estarei à altura de representar uma figura tão expressiva da nação brasileira, porém, de outra sorte, não fujo da responsabilidade de minimamente reproduzir a obra de meu avô.

Analisando essa história sob ótica pessoal e pública, alguns números me chamam a atenção. A trajetória política de Jango, entre a sua eleição de Deputado Estadual em 1947 até a deposição da presidência em 1964 compreende apenas 17 anos de vida pública. Este curto período foi suficiente para marcar perante a história brasileira o seu nome como o chefe de executivo que mais se empenhou em reformar profundamente o estado brasileiro, que já na década de 60 não mais correspondia às expectativas da população.

Falar em João Goulart é refletir sobre as reformas da sociedade brasileira. Nas palavras do próprio Presidente, no famoso comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964: “não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil”.

Durante seu curto mandato presidencial, Jango compreendeu que os contrastes mais agudos que a sociedade brasileira apresentava, naquela fase de desenvolvimento, eram de natureza estrutural, e, em virtude deles, a imensa maioria de nossa população vinha sendo sacrificada. Nosso povo sofria em função da injusta e desigual distribuição de renda, no referente à sua participação na vida política do país e na falta de oportunidades de trabalho e de educação que o país oferecia. Como se percebe, esta luta continua viva e segue valendo o sacrifício diário de mantê-la erguida. Consta que Getúlio Vargas, inspirador de Jango na política, certa feita teria dito que “quem não tiver confiança nos nossos destinos é indigno do legado que recebeu”.

Reafirmo nesta data de 40 anos de morte de meu avô o compromisso com a importância de seguir lutando por uma Nação independente e soberana, sem dobrar-se aos desmandos do rentismo especulativo de qualquer ordem. Aponto para a necessidade de explorar um humanismo que lhe era característico, que se perde hoje gradativamente para o individualismo da sociedade de consumo. Por fim, passados 40 anos da morte de um grande homem público, é válido lembrar que como nunca precisamos de seu exemplo para consolidarmos uma realidade calcada em justiça social.

* Advogado, primeiro suplente de Senador