Há uma controvérsia sobre a data de nascimento de João Goulart: 1º de março de 1918 ou de 1919? Também há em relação a Getúlio Vargas. O bruxo de São Borja ficou mais novo. Jango, mais velho. Se tivesse nascido em 1918, hoje, se vivo fosse, conforme a fórmula consagrada, Jango faria cem anos. Fiquemos com 99. Quanto mais leio sobre Jango, mais o admiro. Humano, demasiadamente humano, é isso que sempre penso. Duas vezes a história tentou Jango com a possibilidade do mergulho na Guerra Civil, em 1961 e em 1964, e duas vezes ele soube resistir.
Uma anotação manuscrita de Jango da época do parlamentarismo brasileiro de ocasião mostra que arroubo não lhe faltava: “Não podemos ficar na constatação verbal da miséria porque esta constatação não encerra em si nenhuma solução concreta”. Havia realismo, indignação e força naquilo que dizia. A postura teórica parecia-lhe “absolutamente inconsequente”. Ele queria soluções “efetivas e urgentes” para problemas que se eternizavam. Subia o tom: “Isto sob pena de repetirmos o gesto do avestruz, que enterra a cabeça na areia na ilusão de assim conseguir vencer a tempestade. Vibrava: “Eu não voltarei às costas à realidade”. Assumia as suas responsabilidades: “Não me deixarei empalhar nas prateleiras das soluções jurídicas”.
Comprometia-se sem temor de chocar ou de aborrecer os poderosos: “Os trabalhadores me terão ao seu lado (...) ainda que esta atitude venha a desagradar certas elites defuntas historicamente superadas que não têm nenhuma mensagem a transmitir ao povo”. Ponderava: “A minha rápida experiência no poder, embora amputada, me permite afirmar que o exercício do governo nas atuais circunstâncias brasileiras reclama novos instrumentos”. O disponível, segundo ele, não atendia mais “aos imperativos e às realidades da vida presente”. Jango ousava: “Ao longo da história vemos que os movimentos revolucionários foram todos eles gestados no seio de ventres insatisfeitos”. O Brasil era um vulcão.
Jango avançava em meio ao perigo: “Os primeiros acordes da Marselhesa nasceram de vagidos intestinais de fome”. Depois da provocação, alertava: “E para que não digam que estou a incorrer nos mesmos erros das constatações teóricas, entendo que é oportuno trazer ao exame do povo as soluções adequadas (...) Sem perda de tempo”. Um grande homem num tempo pequeno. Na Argentina, obtive o atestado de óbito de Jango, onde evidentemente constam a assinatura do médico e a causa da sua morte, “infarto do miocárdio”. Alegava-se que só constatava “enfermedad”. Confusão de documentos. Jango poderia ter sido assassinado, tantas eram as conspirações da época, mas não foi. Há jornalistas que não se conformam com uma morte por doença. O assassinato fica melhor na história.
O que estraga é a falta de prova.
O centenário (ou quase) de João Goulart é uma boa oportunidade para refletir sobre o legado desse homem que queria reformar o Brasil. Ele começou definitivamente a cair no dia em que tornou pública a sua intenção de fazer a mãe de todas as reformas, a reforma agrária. Nem Getúlio Vargas ousara dar esse grande salto. Era revolução demais.