Há uma boa safra de filmes para ver nos cinemas: “Roda gigante”, de Woody Allen; “O jovem Karl Marx”, de Raoul Peck; “Lou”, de Cordula Kablitz-Post, sobre Lou-Andréas Salomé, a mulher independente e à frente do seu tempo que fascinou Nietzsche, Rilke e Freud; e “O destino de uma nação”, de Joe Wright, sobre Wiston Churchill. Já comentei aqui “Roda gigante”. Vamos ao jovem Marx. Ótimo filme. Um atraente e bonitão Karl aparece correndo da polícia, em Paris, ao lado de um mais resistente fisicamente, inclusive ao álcool, Engels. Aparece também fazendo filhos, ganhando de todo mundo no xadrez, polemizando com o anarquista Proudhon, para quem toda propriedade era um roubo, desancando os socialistas utópicos, conversando com Bakunin, lendo, escrevendo e construindo suas ideias que abalariam o mundo.
Até Max Stirner dá as caras no filme. Stirner foi um anarquista alemão, autor de “O único e sua propriedade”, que muito me impressionou quando eu era jovem estudante de história e jornalismo. Stirner era contra o Estado. Numa releitura atual enviesada, seria visto como neoliberal. Salvo pelo fato de que criticava o parasitismo burguês. Marx e Stirner não se entendiam. Chegaram a dividir uma cela. Marx fez uma boa frase: “Alguns dias de prisão vai fazer bem a todos nós”. A briga interna no jornal que faziam tornara-se asfixiante. Depois disso, Karl e a mulher, Jenny, viveriam no exílio: Paris, Bruxelas, Londres, sempre expulsos, perseguidos, controlados, duros.
Jenny aparece no filme com uma mulher bonita (interpretada por Vicky Krieps), inteligente, corajosa e com forte participação intelectual na vida de Karl e dos seus amigos. Sugere título para livros, intervém nas discussões com os anarquistas, ajuda na redação do “Manifesto comunista”, tem uma visão de mundo forte e cristalina.
– Não existe felicidade sem revolta – diz a Engels.
Filho de um industrial, Engels é o jovem revoltado que rompe com o pai para se misturar com o proletariado das suas fábricas. Fez isso tão bem que impressionaria Karl Marx com o livro “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, resultado de uma minuciosa pesquisa de campo. Em princípio, tudo mundo sabe disso. Raoul Peck conseguiu dar vida e sentido a tudo numa obra de entretenimento. Funciona. A gente sai do cinema com uma sensação estranha. Depois de ver Marx, Proudhon e todo aquele pessoal debatendo como aceitar que uns tais de Pondé, Karnal e Cortella sejam chamados de pensadores? São comentadores. Contra a “Filosofia da miséria”, de Proudhon, Marx escreveu a “Miséria da filosofia”. Seria o caso de escrever uma “Miséria da filosofia midiática”? Não percamos tempos com as notas de rodapé da história.
O pensamento de Marx pode estar superado como prognóstico da superação do capitalismo. Está superado como diagnóstico de seu funcionamento? Ele parece ter descrito a globalização atual no detalhe. Como tanto anticomunista solto nas redes sociais é de se pensar que o marxismo esteja vivo. Será que o espectro ainda ronda? Ou são apenas fantasmas na memória dos nostálgicos?