Leila Slimani é marroquina. Vive em Paris. Ganhou o Prêmio Goncourt, o Nobel da literatura francesa, por seu livro “Canção de Ninar”, história de uma babá que matou as crianças sob seus cuidados. Leila esteve em Porto Alegre como convidada do ciclo de palestras Fronteiras do Pensamento. Fui encontrá-la para uma entrevista, que sairá no Caderno de Sábado. Antes, obviamente, li o seu romance. Tenho esse hábito. Tenho também a vaidade de falar com grandes da literatura. Não esqueço a semana em que levei à minha casa dois ganhadores do Goncourt, Michel Houellebecq e Patrick Chamoiseau. Sou humano. Cheio de defeitos, de ilusões e de pequenas glórias bobas.
“Canção de ninar” parece uma reportagem: linguagem simples, frases curtas, nenhum adensamento da narrativa, descrição clara, temática relevante, nada de “literatura” enfeitada. Dificilmente ganharia um prêmio no Brasil. Aqui o padrão é o de Raduan Nassar, Luiz Rufatto e Evandro Affonso Ferreira. Ou seja, quando mais hermético, obscuro, confuso, melhor. Não deixa de ser interessante. Só não conquista leitores. Os próprios escritores amam. Eles se autopremiam. A população ignora. Leila Slimani já foi publicada em mais de 30 países e vendeu mais de 700 mil exemplares de “Canção de ninar”. Vender faz bem embora alguns detestem.
De que fala Leila Slimani? Da necessidade de combater o fundamentalismo islâmico, do lugar da mulher na sociedade atual, da dificuldade de ser mãe e conduzir uma carreira profissional ao mesmo tempo, da necessidade de combater preconceitos e valorizar conquistas do iluminismo como a tolerância e o direito à autonomia pessoal em relação a qualquer princípio de identidade e de comunidade. Sem uma retórica literária nem fixação pelo próprio umbigo, a exemplo do que faz Houellebecq e na contramão das modas praticadas pelas panelinhas estéticas, Leila Slimani fala do que interessa no dia a dia das pessoas. Não faz romance. Conta a vida. Não embeleza. Apenas narra. Essa é a grande arte. Não é a única. Mas não deixa de ser uma boa arte.
Como é a narrativa de Leila? Assim: “O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido”. Como é a narrativa de um autor brasileiro cult como Rufatto: “A caminho o neon vaga veloz por sobre o asfalto irregular, ignorando ressaltos, lombadas, regos, buracos, saliências, costelas, seixos, negra nesga na noite negra, aprisionada, a música hipnótica, tum-tum tum-tum, rege o tronco que trança, tum-tum tum-tum, sensuais as mãos deslizam no couro do volante, tum-tum tum-tum, o corpo, o carro, avançam, abduzem as luzes que luzem à esquerda à direita, um anel comprado na Portobello road...” É a tal originalidade da linguagem. Nem o autor entende mais depois de alguns meses. Fica perfeita para ganhar certos prêmios lentos.
Evandro Affonso Ferreira, ganhador de Jabuti: “Ranhos, remelas? Jorravam quando o irremediável perfurava o relento, alheio a nossas reiteradas aspirâncias, a nossos praguejares viscosos, escorregadios, obscenos. Ah, aqueles orvalhos insalubres, impiedosos, desacolhedores de nossas plangências invernais. Ficávamos curvados diante da arrogância atmosférica do relento, que praticava tempo todo funambulismo, traquinice mórbida. Cavava aos poucos covas rasas”. Se alguém entendeu alguma coisa que traduza para nós, por favor.