Em tempos de Transparência
São Paulo está imitando Porto Alegre. A população, representada pelos únicos que transcendem sua indignação para além do Feicebúqui, os estudantes, está protestando contra o aumento da tarifa de ônibus.
Como sempre ocorre em qualquer manifestação, há os babacas que depredam o patrimônio público e privado. Como sempre ocorre em qualquer manifestação, a imprensa conservadora muda o foco da discussão e protagoniza em suas reportagens somente o vandalismo. Como sempre ocorre em manifestações do povo, a reivindicação é justa.
Na capital gaúcha a coisa deu uma acalmada, mas o assunto já já virá à tona novamente. Manifestações ocorrerão. Haverá depredação. A mídia conservadora mostrará os jovens protestantes como desocupados e os vândalos como formadores de quadrilha. A RBS defenderá a diminuição dos tributos para o transporte coletivo. Zero Hora publicará um gráfico demonstrando o aumento das isenções e da meia-passagem nos últimos anos. No Jornal do Almoço aparecerá um cansado trabalhador indignado com o engarrafamento ocorrido por causa dessa “arruaça”.
As empresas de ônibus, por sua vez, alegarão que já estão no seu limite operacional. Defenderão que a tarifa já é a menor do que podem suportar. Citarão o aumento do óleo diesel, dos pneus e da manutenção. Lembrarão que os motoristas tiveram um generoso reajuste salarial. Tudo isso justificaria a majoração tarifária.
Eu vi a planilha de custos para a elaboração do valor da passagem. Lá diz: tantos porcento combustível, mais tanto porcento gastos com pessoal, outros tantos porcento o lucro. Dizia a porcentagem e o valor por quilômetro rodado. Muito didático. Mas quanto de lucro ganham os empresários do setor. Depois deles pagarem todo e qualquer custo, quanto, de fato, lhes sobra?
Eu ganho R$ 1.500,00 por mês. Não estou querendo causar inveja aos mais desafortunados. Nem quero deixar com a consciência pesada os abastados. Estou citando um dado que está à disposição de toda e qualquer pessoa. Sou municipário. Procurem meu nome no Portal Transparência que obterão essa informação, que está lá indiferente à minha vontade ou opinião.
Meus curiosos vizinhos na certa já fizeram essa consulta. Querem saber porque não troco de carro, ou porque finalmente comecei aquele puxadinho lá nos fundos. Ossos do ofício. Eu fiz um concurso público. Aceitei trabalhar recebendo do Estado. Se não concordo com isso, eu que vá trabalhar na iniciativa privada. Como cobrador talvez. Os empresários do ramo afirmam que a classe está muito bem remunerada.
Os donos das empresas de ônibus têm uma concessão pública. Assim como meus vizinhos fuxiqueiros têm o direito de saber quanto eu ganho, também os usuários podem querer saber quanto de fato tá rendendo essa atividade pública. Os empresários também participaram de um concurso público para explorar esse trabalho. Sim, as concessões são dadas mediante licitação pública. Não posso crer que rasgaram a Constituição e não fizeram-na...
Ademais, se divulgassem seus lucros, os empresários do ramo finalmente poderiam demonstrar o quanto estão empobrecendo com as inúmeras isenções e meia-passagens.
Delmar Bertuol