Leitores, mensagens e assuntos

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De que se alimenta um cronista?

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    Machado de Assis escreveu em muitos jornais e com muitos nomes. Era a época do pseudônimo. Todos eles costumavam dialogar com seus leitores. Nas condições daquele tempo era um monólogo pontuado por alguma carta ou por encontros na rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro. Ciente da limitação dessa conversa, o cronista podia ironizar: “Não há nada como falar a uma pessoa que não interrompe”. O leitor de hoje interrompe, participa nas redes sociais, comenta freneticamente e, quando muito aborrecido, pede o cancelamento do infeliz escriba.
    Tenho sido feliz com meus leitores ao longo de mais de três décadas de ofício (21 anos só aqui neste grande jornal). Cativei as leitoras de mais de 70 anos, com alto índice de aprovação dos 80 aos cem anos de idade. Já fui convidado para ser presente de aniversário em várias comemorações de centenário de existência. Vez ou outra, tomo conhecimento da morte de um leitor que eu poderia ter conhecido ou admirado: “O Movimento dos Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho perdeu um integrante muito especial. Neste dia 14 de outubro faleceu Haroldo Pinto Hugo aos 74 anos [...] O Haroldo era um cara sensacional mesmo, um roqueiro que adorava Bezerra da Silva e que lia todas as colunas e livros do Juremir Machado da Silva. Era um cara de fé, se prometesse fazer algo sempre podíamos confiar que ele faria o melhor possível”.
    Pêsames aos amigos e à família do Haroldo, um defensor das árvores. Eu temo pelas árvores da Redenção. A cada temporal caem algumas. Sinto que o parque vai ficando mais desarborizado. Não percebo a reposição. Fico me perguntando se existe alguma técnica ou tipo adequado de árvore capaz de dar o mais rapidamente possível nova densidade ao nosso oásis no coração de Porto Alegre. Durante muito tempo, vivi de lado para a Redenção, assim como vivemos de costas para o Guaíba até a nova orla se tornar um paraíso na cidade. Morador do Bom Fim (do grande Bom Fim, entenda-se, que vai da Sarmento Leite a Silva Só e da João Pessoa a Vasco da Gama), passava de ônibus pela Redenção.
    Não tinha tempo de caminhar. Precisava conquistar o mundo. Pela mesma razão, não tive filhos. Nem gato nem cachorro. A pandemia me trancou em casa. Agora, estou assolado pelos convites para sair da casa e não me atrevo: gravar um documentário sobre Belchior, participar de uma mesa na Feira do Livro, dar uma palestra numa comemoração de fim de ano (já está chegando). Só aceito ir à Redenção. Uma leitora de 101 anos, dona Jaci, me ensinou: “Conquiste o seu bairro. É suficiente”. Escrevi muitos livros (demais até). Ainda posso plantar uma árvore. Ou várias. Se eu fosse plantar uma árvore por leitor que me escreve, posso dizer com orgulho, sem gabolice, que plantaria uma floresta. Não recuperaria a Amazônia porque aí precisaria toda a crônica nacional.

 


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