Juremir Machado da Silva

Lembrar de Zelda no dia da mulher

Cada época tem as suas celebridades. Nem sempre as que merece. Quase todas passam mais rapidamente do que gostariam. Certamente é a vingança do público contra a hiper-exposição dos seus ídolos. Depois de mimados, tornam-se insuportáveis e precisam ser trocados por outros. Os fãs podem ser cruéis. Mudam de ídolos como quem troca de marido ou de mulher. Sem qualquer explicação convincente. Quando menos um pobre ídolo espera, o fã diz: “Cansei”.

E vai embora sem a menor cerimônia. Algumas celebridades, porém, deixam um rastro de perfume que perdura no tempo graças ao marketing das marcas sofisticadas. Outras, mais interessantes ou radicais, deixam um rastro de tragédias pessoais que se fixam no imaginário dos escritores. Em 1918, em Montgomery, Alabama, Zelda, considerada uma beleza do sul, conheceu o tenente Francis Scott Fitzgerald. Juntos, por amor e ambição, eles conquistaram Nova York e Paris.

Ou seja, o mundo de então, que logo acharam sufocante.

Zelda era linda e louca. Francis era talentoso e bêbado. Um coquetel explosivo. Ela morreu queimada, aos 47 anos de idade, na clínica psiquiátrica onde passou internada uma parte da sua vida. Ele morreu antes, aos 44 anos, na miséria, depois de ter sido o escritor mais famoso e adulado da sua geração. Gilles Leroy ganhou o Prix Goncourt de 2007, o mais prestigioso da França, com “Alabama Song”, um romance que retraça o itinerário de Zelda. O autor assume o papel de Miss Alabama para tentar compreender os seus sofrimentos. Depois de uma temporada em que bebiam champanha no café da manhã, Zelda e Francis descobriram que a vida era mais complicada. Havia uma filha para criar, contas para pagar, sexo para fazer e histórias para escrever. Além disso, Zelda não podia suportar o papel de coadjuvante de um marido célebre.

Francis Scott Fitzgerald tornou-se um escritor famoso praticamente antes de virar adulto. Tirou Zelda de casa, contra a vontade dos pais da moça, e deu-lhe o mundo como apartamento. No começo, ela achou bacana. Divertido mesmo. Depois, entediou-se até não poder mais. Paris e Nova York vistos do alto da vida mundana pareciam-lhes bovinamente provincianas. Na capital francesa, instalaram a chamada “geração perdida”: sexo, literatura, álcool e muita festa. Até cair. A Zelda de Leroy insinua que Francis era homossexual e que o grande amor da vida dele teria sido o “estúpido” Ernest Hemingway. Insinua também que Francis assinou muitas das histórias escritas por ela e que pilhou, ano após ano, os seus diários e idéias. Ela teve um amante. Um cara cujo único talento parece ter sido o de levá-la para a cama furiosamente. É uma arte para poucos. Exige muito talento e energia. Francis acabou com a festa. Zelda pirou.

Será que Zelda era apenas uma mulher invejosa e medíocre, incapaz de aceitar o sucesso do marido? Ou Francis era, no fundo, um machista e parasita que castrou os vôos da sua boneca do sul e roubou-lhe a imaginação? Zelda e Francis eram fúteis, arrogantes, egoístas, perdulários, inseguros e infantis. Enfim, duas celebridades como cada época sabe produzir em doses cada vez menos comedidas. Há só uma diferença em relação às celebridades de hoje: ela enfrentou o seu tempo e enlouqueceu em busca de liberdade e de reconhecimento. Ele, entre um porre e outro, escreveu quatro ou cinco obras-primas, entre as quais o magnífico “O grande Gatsby”. O preço da fama era mais alto antes do BBB.