Linguistas furiosos
Recebo e-mails de linguistas.
Vários.
Estão furiosos.
Garantem que não julgam.
Apenas observam e constatam.
Mas quando alguém diz que o livro do MEC está errado, eles que não julgam, pois não acreditam em certo e errado nisso, condenam quem julga e, julgando sem querer julgar, dão por certo o livro do MEC por não haver certo e errado, o que é uma forma de só existir o certo.
Os linguistas dizem que não julgam, mas ficam indignados que alguém se meta no campo deles, terreno cercado dentro do qual só eles podem saber o que é certo ou errado. Ou seja, onde querem ser os juízes absolutos.
Velha ideologia cientificista.
A mim os linguistas ainda não entenderam.
Acham que estou atrás.
Estou na frente.
Ficam presos à diferença entre fala e escrita.
Não percebem que mesmo na fala o que defendem é indefensável.
Por questão de lógica.
Ou precisam tirar outras conclusões do que defendem.
Nas escolas não se deve ensinar preconceito.
Deve-se combatê-lo.
Se o padrão culto gera preconceito em relação a uma forma equivalente, popular, deve-se parar de ensinar o padrão culto para eliminar o preconceito.
A sociedade exige que se ensine o padrão culto?
Se é por mera distinção ou jogo de poder que o padrão culto é imposto, deve-se enfrentar a sociedade e obrigá-la a mudar.
É assim que se faz com outros preconceitos.
Ceder ao preconceito por estratégia de ascensão social é aceitar o conformismo.
Ensinar gramática, nesse lógica, significa reproduzir um preconceito absurdo.
Pelo jeito há uma linguística que é uma metodologia da adaptação ao meio preconceituoso.
Falando em preconceito, há linguístas cheios de preconceitos com jornalistas.
Ainda não perceberam que os jornalistas estão cobrando coerência.
E denunciando mais do que o aval do MEC aos "erros".
Denunciando o pragmatismo dos linguistas.
Para um jornalista é inaceitável que se deva estudar uma regra arbitrária, ou equivalente a outra vítima de preconceito, só para fazer o jogo social e se adaptar às expectativas preconceituosas de quem manda no jogo.
Para um jornalista, esse tipo-ideal, ou a regra tem valor em si, racionalidade interna, lógica, valor intrínseco, ou não deve ter privilégios em relação a qualquer outra.
Os jornalistas estão criticando o pragmatismo dos linguistas, essa conformista aceitação de uma regra supostamente arbitrária do padrão culto só para corresponder às exigências de uma sociedade sem consciência dessa arbitrariedade.
É hora dos linguistas sujarem as mãos e abandonar essa neutralidade fictícia.
Se a sociedade ensina nas escolas como superior algo que não é e apenas reforça um preconceito, cabe aos linguistas lutarem pelo fim do preconceito, não se adaptar ao preconceito.
Os linguistas também fazem parte da sociedade.
Salvo se eles não acreditam inteiramente no que dizem.