Por que publiquei um novo livro? Porque me faço perguntas. Porque me delicio com certas respostas. Porque continuo não tendo filhos, cachorros, gatos, carro, sítio e caixa de ferramenta. Sempre quero saber o que explica o interesse das pessoas por uma obra. Invento hipóteses e tento comprová-las. Nunca paro de me perguntar o que é o imaginário. Tenho tempo livre. Trabalhei cinco anos neste novo livro. Tenho hábito de escrever mais de um livro ao mesmo tempo, assim como de ler vários textos alternadamente. Um texto inspira o outro. Um romance exige um ensaio em paralelo. Um poema, que levo meses para terminar, requer saídas, rupturas, viagens, descansos e reinvenções.
O que é o imaginário? Um sentido, aquilo que dá significado singular, uma transfiguração. Como ele se produz? Eis o ponto. Não há departamento de marketing capaz de garantir que um novo imaginário emplacará na próxima estação. Em tempos de entretenimento como significado superior falar de imaginário faz sentido e simultaneamente assusta. Será chato? Para que pensar nisso? Que papo é esse? Sai uma pizza calabresa? Rola um som do Tiaguinho aí? Não tem jogo hoje? Nem na Fox? Antigamente é que era bom, havia cultura, música de qualidade e respeito aos grandes pensadores. Imaginários. Realidades. Mitologia.
Publicarei mais dois livros neste ano: Raízes do conservadorismo brasileiro, a abolição na imprensa e no imaginário social (segunda-feira, 14 de maio de 1888, o ano esquecido); e o romance A segunda vez de Quelimane a Samarcande. Pretendo ganhar o Nobel da literatura com este último. Sou melhor do que Bob Dylan. Além disso, não levarei semanas para aceitar a distinção e farei discurso na hora de receber a honraria. Já tenho a introdução pronta. Mas permitirei que Michel Houellebecq seja agraciado antes de mim. Sempre tenho grandes ambições. Faz parte do meu imaginário de autor. Concorrerei à Academia Brasileira de Letras na vaga de Paulo Coelho. Como desejo longa vida a ele, que pode até reencarnar, isso vai demorar. Mas chegará. Não aceito o lugar de José Sarney. Tenho o meu estrito código de escritor.
O que é o imaginário? A imaginação que se tornou realidade sem que fosse possível impedi-la nem dirigi-la. Dou de graça as epígrafes do meu livro (não me custaram nada). O filósofo Heidegger: “O caminho é um caminho do pensamento”. O físico Paul Feyerabend: “Necessitamos de um mundo imaginário para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar (e que, talvez, em realidade, não passe de outro mundo imaginário”. O antropólogo Gilbert Durand: O imaginário – isto é, o conjunto de imagens e de relações de imagens que constitui o capital pensado do homo sapiens, nos aparece como o grande denominador fundamental onde se alojam todos os procedimentos do pensamento humano. O imaginário é o cruzamento antropológico que permite iluminar a abordagem de uma ciência humana com a abordagem de outra”. Basta.
Encontrei um amigo do peito, desses que já passaram da idade das conveniências e não afastam a possibilidade do uso de fraldas em breve. Tivemos uma conversa franca e produtiva sobre literatura:
– Estou com novo livro na praça.
– Mais um?
– Mais um.
– Continuas com medo de colocar tela nas janelas do apartamento?
– O que isso tem a ver com meu novo livro?
– Não te faz de bobo. Se colocasses tela nas janelas, terias um gato. Se tivesse um gato, ou mais, não precisarias publicar um novo livro.
– Gosto de escrever.
– Ainda não te curaste dessa ilusão juvenil. Mas vai passar.
– Não acho. Vou morrer escrevendo.
– Há três ilusões que passam inevitavelmente: a ilusão de que as mulheres ainda podem se interessar por nós, a ilusão de que somos insubstituíveis no que fazemos e a ilusão de que temos algo a dizer.
– Estás pessimista, hein? Depressão?
– Lucidez.
– Foi o que eu disse: depressão.
P.S.: para quem interessar possa – nunca é impossível –, meu livro está em promoção no site do Correio do Povo: www.correiodopovo.com.br

*
Lombas
Não fosse o tempo,
Eu cairia no esquecimento.
Mas esse edifício de sombras,
Que se ergue acima das bombas,
Enquanto eu olho pela nesga da rua
O mar na sua realidade mais crua,
Me salva do entorpecimento.
Então eu me viro para a direita,
contemplo o morro que me espreita,
Um pingo de chuva me beija a boca,
E toda a vida me rasga a roupa.
Avisto duas grandes luas.
Vou sair nu pelas ruas.