Seremos cada vez mais lidos pelos livros que lemos. O historiador israelense Yuval Harari já tinha alertado sobre isso em “Homo Deus”. André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia, um dos pioneiros dos estudos sobre cibercultura no Brasil, falou disso há alguns dias no Grupo de Tecnologia do Imaginário (GTI), que coordeno no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUCRS. Livros em papel podem nos ensinar muito, mas nada sabem de nós. Já o livro digital, o e-book, vai nos ler o tempo inteiro. Agirá como espião.
Cada marcação feita no livro digital pode ser uma informação para editores, livreiros e autores. Eles poderão ficar sabendo se abandonamos a leitura em determinada página e quantos fizeram isso. Poderão ter conhecimento das passagens que mereceram nosso destaque. Se muitos largam um livro na mesma altura, o autor saberá que errou em alguma coisa. Ficará mais fácil identificar o que agradou e dar pistas para novas obras. Há perigo nisso: roteirização, padronização, fórmula do sucesso. O livro impresso pode saber muito, mas é cego e surdo. O livro digital lido num dispositivo inteligente ouve tudo, vê tudo, nada deixa escapar e pode contar tudo para as partes interessadas.
O estilo de autor poderá ser modificado pelas informações colhidas pela ferramenta de leitura. Fico pensando: o que a leitura de Borges em dispositivo eletrônico revelará sobre mim? O leitor de minha leitura contará que marquei duas vezes esta passagem de “O outro Whitman” (sublinhei e pus um asterisco ao lado): “Nós homens das diversas Américas permanecemos tão incomunicáveis que apenas nos conhecemos por referência, contados pela Europa”. Verá que fiz essa marcação em datas diferentes? Só não saberá, eis a minha vingança, a razão do meu interesse, do meu encanto, por essa sacada contundente.
Nunca saberá que pensei assim a cada vez: “O outro Borges”. De um lado, o Borges europeizado, quase um estrangeiro disfarçado de argentino, que se inventou uma intimidade fictícia com os subúrbios de Buenos Aires, tão verossímil que se tornou mais real do que a realidade, hiper-real, a ponto de que podemos exclamar: “Como tudo mudou desde o tempo de Borges”. Do outro lado, o Borges sul-americano capaz de perceber o quanto éramos (e somos) colonizados. Borges era um reacionário de quatro costados que simpatizava com o hediondo Pinochet. Quando escrevia, porém, o seu conservadorismo tosco desaparecia. Ele não se tornava progressista. Apenas se apagava.
Seremos lidos pelos livros que lemos e deixaremos rastros compartilháveis daquilo que nos interessa a cada página. Numa crônica de Machado de Assis, sublinhei este fragmento sem me lembrar agora o motivo: “Visitei há dias um canteiro de rosas. Foi antes da chuva. As belas filhas da terra acolhiam a um tempo as lágrimas e os beijos de Cíntia. Tudo o que nos circundava, a mim e às rosas, convidava à cisma, à poesia, aos voos livres da imaginação”. Que teria feito Machado de Assis se soubesse que leitores assinalaram esse trecho?