Juremir Machado da Silva

Luiz de Miranda para Nobel da literatura





Em Palomas, o jornal Meia Noite não hesitaria na escolha da manchete: “Gaúcho é candidato ao Nobel da literatura”. Para a Rede Baita Sol a “gauchidade” é a essência das coisas. Um poeta não é grande por ser poeta nem por ser grande, mas por ser gaúcho. As mulheres gaúchas são as mais bonitas por terem nascido no Rio Grande do Sul. É assim. Luiz de Miranda é candidato ao Prêmio Nobel de Literatura. Foi indicado pela PUCRS. Ferreira Gullar e Ariano Suassuna também são, indicados, parece, pelo Pen Clube do Brasil. Eu não acredito em prêmios literários, jornalísticos e outros. É sempre a escolha de um grupo, uma “panelinha”, em geral, que passa a valer com uma definição natural, uma escolha objetiva.

Ferreira Gullar é um grande poeta. Na verdade, o grande poeta do “Poema sujo”. Ariano Suassuna é um bom escritor. No Brasil, tem, no mínimo, uns 50 melhores do que ele. Em arte, dá para saber quase com certeza o que é muito ruim. Já o muito bom pode ser algo muito subjetivo. Eu sou considerado tão bom escritor quanto jogador de futebol. Não me abalo. Tenho, claro, de suportar as malas que me consolam, estimulam ou dão sugestões patéticas. Faz parte do meu show. Luiz de Miranda é um maldito como eu. Tenho dito isso com frequência. Há quem goste muito da sua poesia e quem deteste. Miranda acredita profundamente na qualidade do seu trabalho. No Rio Grande do Sul, hoje, não há um só poeta melhor do que ele. Isso pode ser tomado com um elogio excessivo a ele ou como crítica cínica e dissimulada aos outros. Miranda tem valor. Se publicasse pela Companhia das Letras e fosse queridinho da Folha de S. Paulo, seria adorado por aqueles que lhe torcem o nariz sem ter lido seus livros.

O Brasil vive uma crise de renovação literária. Nada surgiu de interessante depois dessa geração que, no Rio Grande do Sul, passou dos 60 anos: João Gilberto Noll, Luiz Antônio de Assis Brasil, Luiz de Miranda, etc. Tem uma gurizada mais ou menos nova por aí boa de mídia e ruim de texto. E uns veteranos ilegíveis como Luiz Ruffato e Cristóvão Tezza, cujo único livro razoável não era ficção, mas um depoimento sobre seu filho. Ferreira Gullar foi melhor do que Miranda no seu clássico “Poema sujo”. No restante, é equivalente. Em alguns momentos, perde. Tem alguns poeminhas dele que parecem feitos por um adolescente: “Quando você for se embora,/moça branca como a neve,/me leve./Se acaso você não possa me carregar pela mão,/menina branca de neve,/
me leve no coração”. Lembra batatinha quando nasce...

Gaúchos vão discordar de mim, pois gaúchos sempre discordam de mim e só tem uma coisa que gaúcho admira mais do que ser gaúcho: uma celebridade “de fora” ou fazer sucesso “lá fora”. Eu recusaria o Nobel da literatura. Já vi tanto escritor ruim e desconhecido ganhar o Nobel que não posso levá-lo a sério. Abstraída essa minha implicância ou marra, Miranda é um bom candidato. Se ganhasse o Nobel, poderia ser, quem sabe, com sorte e algum lobby, patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. Antes que os livros em papel desapareçam.