Juremir Machado da Silva

Lula, o filme do Brasil

Lula, o filme do Brasil

Corri para o cinema no primeiro dia do ano. Fui ao Shopping Moinhos de Vento. Estava fechado. Mesmo se estivesse aberto, não adiantaria: eu estava no horário errado. Voltei em casa. Conferi a programação na internet. Fui ao Shopping Total. Deu certo. Vi o filme. A história de Lula é muito boa. O filme de Fábio Barreto, “Lula, o filho do Brasil”, é muito ruim. Propaganda pura. Na abertura, um letreiro gaba o fato de o filme não ter apoio de nenhuma lei de incentivo. É pior do que isso. Não tem patrocinador. Tem empreiteiras. Entre os generosos apoiadores financeiros estão a OAS (essa mesma que quer faturar R$ 1 bilhão às custas do Grêmio), a Camargo Corrêa (essa mesma que está atolada num mega-escândalo de corrupção) e a Odebrecht. Sem contar a Globo Produções.  Ninguém merece "aliados" assim.

Claro que entre os patrocinadores de um filme sobre Lula não poderia faltar a Brahma. Nem o Senai. A vida de Lula é um filme. Nada podia prever que ele chegaria ao Planalto partindo de um buraco tão profundo. Salvo o fato de que as pessoas costumam se enganar sobre a competência necessária para ser presidente da República. O presidente não é cirurgião apto a operar com as próprias mãos, mas o detentor de um “capitão simbólico”. Aí está: a presidência de uma nação é uma função simbólica. Lula adquiriu o seu “capital simbólico” (expressão consagrada pelo sociólogo Pierre Bourdieu) ao liderar as greves dos metalúrgicos do ABC ao final da ditadura militar. Estava no lugar certo na hora certa e tinha carisma. O curto tempo de prisão que experimentou, em meio ao qual morreu sua mãe e sobre o qual surgiram polêmicas constrangedoras recentemente, deu-lhe o suplemento de “aura” que faltava para o grande salto.

O resto veio do seu passado. A humanidade adora histórias de superação e contos de fadas. Fazer um operário chegar ao poder, depois de uma infância miserável, é um poderoso combustível social. Para uns, é revanche. Para outros, a prova de que todos podemos ascender. Lula soube utilizar o “capital” adquirido. O filme, no entanto, comete todos os erros que uma obra de qualidade mínima evitaria. Em primeiro lugar, é “plano”: o personagem principal praticamente não tem contradições. Afora uma pequena hesitação, diga-se de passagem honrosa para ele, quanto à utilidade de virar sindicalista, ele anda sempre em linha reta: é corajoso desde pequeno, justo, inteligente, excelente aluno, astuto, bom negociador, espero nas questões do coração, bom filho, bom marido, bom colega, bom tudo. Lula é perfeito.

O português de Lula foi corrigido no filme. Ele diz em seus discursos no ABC “patrões” e “trabalhadores”. Dificilmente come um “s”. Por quê? É verossímil fazer um filme sobre um personagem que todo mundo conhece e está aí para servir de parâmetro mostrando-o como ele não foi e nem é? “Lula, o filho do Brasil” parece uma obra do DIP, o Departamento de Imprensa e Propagada do Estado Novo. Deve ser o Departamento de Idiotices Patrocinadas destes Novo Estado. Mas, por favor, não me confundam. A direita que não se assanhe. Lula está fazendo um excelente governo na medida em que se possa fazer um excelente governo. O fato de comer ou não um “s” não afeta em coisa alguma a sua “função simbólica de presidente. As críticas feitas a ele nesse sentido não passam de estratégias de desqualificação daqueles que não admitem ver o cargo mais alto da nação exercido por um retirante nordestino filho de um cachaceiro absoluto.

Lula não precisava do filme de Fábio Barreto. O cinema brasileiro deu mais uma mostra da sua incompetência. Estragou uma boa história. Todo mundo é bonito no filme. O cinema parece não suportar pessoas comuns ou feias. Bem, imaginemos que aos olhos de um apaixonado, o objeto da sua paixão é sempre deslumbrante. O filme, no entanto, elimina qualquer fato desabonador para Lula. Não é uma cinebiografia. Mas uma hagiografia bancada pelos tradicionais patrocinadores de campanha. O horário eleitoral já começou. Só que ainda não é gratuito. Custa um ingresso de cinema. Esse filme certamente será útil em todas as escolas de cinema do Brasil: servirá para mostrar como não se deve fazer.