Jornais afirmam que Lula, preso, está fazendo o que mais gosta e sabe: política. Debruçado sobre o tabuleiro eleitoral, feito um Maquiavel no cárcere, Lula mexeria as suas peças e as dos adversários. Em vez de fortalecer a candidatura de Ciro Gomes para designá-lo como seu substituto no caso muito provável de ser barrado pelo Tribunal Superior Eleitoral por causa da lei da Ficha Limpa, Luís Inácio teria trabalhado arduamente para desidratá-lo por ver nele o maior concorrente do PT pelos votos do Nordeste. O principal movimento de Lula para enfraquecer Ciro teria sido o seguinte: empurrar o Centrão dos braços do pedetista para os de Geraldo Alckmin. Está feito.
Para não fortalecer demais o tucano, Lula teria bloqueado a confirmação do empresário Josué Gomes para vice de Alckmin. Para isso o cacique petista teria usado um argumento sentimental: José de Alencar, pai de Josué, foi vice-presidente da República como fiel escudeiro de Lula. Outro movimento para enfraquecer Ciro Gomes seria a neutralização do PSB, estimulado a não fechar com o candidato do PDT. Nessa leitura do jogo, Lula se manteria candidato até 20 dias antes do pleito. Nesse momento, capitalizado, transferiria seus votos para um petista da gema: Fernando Haddad, Jacques Wagner ou Gleisi Hoffmann. Falta só combinar com os eleitores a votar num “poste”. Noutra interpretação da engenhosa jogatina, a operação para isolar Ciro Gomes teria um objetivo paradoxal: convencê-lo a aceitar ser vice de Lula.
No seu twitter, o gaúcho Tarso Genro escreveu: “Peço a Deus e às forças do além, que eu não esteja entendendo bem que foi feito um acordo PT-PSB, que descarta a candidatura da Marília Arraes ao Governo de Pernambuco, o grande quadro renovador da esquerda do Nordeste! Aguardemos!” Para enfraquecer ainda mais Ciro Gomes, afastando-o do PSB, o PT retirou a candidatura de Marília e vai apoiar a reeleição de Paulo Câmara (PSB). Fácil de compreender, não? Por trás de tudo isso estaria a tradicional filosofia petista de não abrir mão da cabeça de chapa no plano nacional. Nem um neotático, um desses jovens treinadores de futebol cheios de ciência, teria tanta visão de jogo.
O tempo, diz o ditado, é o maior amigo (ou inimigo?) da imaginação. Lula tem tempo, contatos, visitas, experiência, ideias, interesses e apetite para pajelanças. Deve ser divertido mexer os cordões da política nacional de uma prisão em Curitiba. Ajuda a matar o tempo e a espantar o tédio. Se ganhar, talvez Lula dedique a vitória ao juiz Sérgio Moro, que lhe permite pensar as coisas com calma e longe das pressões dos menos afeitos a estratégias arriscadas. O perigo desse maquiavelismo todo, pressupondo-se que ele seja verdadeiro, não demora a mostrar o rabo: ao enfraquecer Ciro Gomes, Lula Maquiavel da Silva, se não puder ser candidato nem indicar um nome atraente para o seu lugar, poderá transformar-se no mais poderoso cabo eleitoral do bege Geraldo Alckmin. Se não for de Jair Bolsonaro.
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Política é arte de engolir ressentimentos. Em Pernambuco e em outros Estados do Nordeste o PT está rifando seus candidatos para apoiar políticos que antes eram rotulados de golpistas.
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Ana Amélia Lemos, ao aceitar ser vice de Alckmin, arrancou formalmente o PP gaúcho do colo de Bolsonaro. Vai conseguir arrancar os pepistas do coração do capitão?