Juremir Machado da Silva

Lulla ou Lula?

Motociclista colidiu com um ônibus no bairro Lomba do Pinheiro
Motociclista colidiu com um ônibus no bairro Lomba do Pinheiro Foto : Carla Ruas
Lulla ou Lula?



Uma época termina. Outra começa. Fim de ano. Começo de ano. Leitores me bombardeiam com e-mails. Alguns atacam com pequenas chantagens: “Por favor, não me decepciona...” Outros atacam com violência: “Seu porco comunista”. Vamos refletir juntos. O que podemos dizer dos oito anos do governo do PT no plano federal? Foi o governo do PT ou de Luiz Inácio? Foi o governo de Lulla ou de Lula? A corrupção foi maior do que as realizações? Foi o governo mais corrupto de todos os tempos? A corrupção existente anula os avanços sociais? O mensalão foi para enriquecimento pessoal ou caixa dois de campanha? Eu, como qualquer ser humano normal, oscilei. Não perdoo o mensalão. O PT, que tanto cobrou ética, não podia ter cometido o menor deslize ético. Ao menos, caiu aquela máscara de santarrão que tornava o PT intragável.
Escrevi, durante muito tempo, Lulla. Fui o primeiro a fazer isso. Adepto da complexidade, capaz de entender que muitas coisas são antagônicas e complementares, compreendi que Luiz Inácio foi Lulla e Lula, governou com o PT, pelo PT e, quando necessário, sem o PT e até contra o PT. Quando Getúlio Vargas aumentou o salário mínimo em cem por cento, a direita enlouquecida apostou todas as suas fichas na crítica à corrupção vista como a maior de todos os tempos. Aprendi que quando os conservadores, acostumados a praticar corrupção e não combatê-la, recuam para o moralismo udenista é que um governo está avançando socialmente. Isso não absolve os corruptos. É uma questão de medida. O governo Lula não foi o mais corrupto de todos os tempos. Ficou na média nacional. Foi mais denunciado pela imprensa conservadora, a mesma que é mais comedida em denunciar quando os seus estão no poder.
Os ganhos sociais, embora não a justifiquem, foram muito maiores do que a corrupção. Partidos como PMDB, o rei do fisiologismo, PSBD, inventor da tecnologia do mensalão, e DEM, que levou o mensalão ao topo como fonte de enriquecimento pessoal, fizeram bem em cutucar o governo, apesar de absoluta falta de legitimidade. Era o roto falando do descosido. Um morador de rua, leitor de jornais que pega no lixo, me disse assim: “O pessoal do Lula rouba, mas faz”. Quem diria, Lula no lugar de Maluf! Falei isso para o mendigo. Ele riu: “Maluf fazia de conta que fazia. Fazia para os dele e dividia o bolo com eles”. Pasmo, perguntei-lhe: “O que está fazendo aí?” Ele soltou um gargalhada: “Fiz poucas e boas”. Enfiei a viola no saco. O Brasil melhorou. A taxa de crescimento econômico de 2010 foi chinesa. Ficamos livres do FMI. Os bancos das universidades de elite deixaram de ser usados só por brancos. Um operário provou competência e habilidade.
Luiz Inácio mostrou ser um gênio em inteligência emocional. Negocia como poucos. Não se intimida. Fala como todo acadêmico deveria falar. Desenrola. Insisto num ponto: os investimentos da Oi e da Gol na Gamecorp do seu filho Lulinha são o seu calcanhar de Aquiles. Nem isso, contudo, invalida o enorme avanço do seu governo. Dilma tem um grande desafio: dar um salto sem qualquer mancha de corrupção. A mídia conservadora está à espreita.