Juremir Machado da Silva

Máquinas podem ser artistas?

EMI e Annie

 

      Quem vai ganhar, o homem ou a máquina? Deep Blue já derrotou Kasparov no xadrez. Jean Baudrillard garantia que a melancolia do computador era não poder blefar nem sofrer ou vibrar com a vitória. A criatura vai engolir o criador? A máquina nunca será tão criativa? Na leitura do apaixonante ou odioso “Homo Deus”, do historiador israelense Yuval Noah Harari, tomei conhecimento do trabalho de David Cope, professor de musicologia da Universidade da Califórnia. Ele cria programas para “música clássica composta por computador”. É punk.

Cope criou EMI, um programa que imita Bach. Emi, num só dia, compôs cinco mil corais “à la Bach”. O professor Steve Larson, da Universidade de Oregon, ficou indignado. Desafiou EMI para um confronto. Diante de um público de melômanos, seriam executados uma peça de Bach, outra de EMI e uma do próprio Larson. A plateia teria de identificar o que era de quem, o que era humano ou não, o que era de gênio. Confusão total: “A plateia considerou que a peça do EMI era Bach autêntico, que a peça de Bach fora composta por Larson e que a peça de Larson fora composta por um computador”. Nocaute. A crítica continuou achando que faltava alma ao computador. Em outra experiência, sem saber de EMI, elogiou-se a sua “elevação da alma”.

Depois do EMI, Cope criou Annie, que não segue parâmetros. Cria, muda de estilo, faz haicai, que são confundidos com os de “poetas orgânicos”. Uma coisa é certa: EMI e Annie compõem melhor do que eu. A humanidade é suicida: cria as máquinas que vão substituí-la? Inventa os argumentos que impedem de parar a máquina? Não podemos fazer com os luddistas britânicos do século XIX que quebravam as máquinas por considerar que elas destruíam os seus empregos? Harari informa que 47% dos empregos dos norte-americanos já estão ameaçados pela tecnologia. Alguns até poderão ser lamentados: há 99% de chances de que operadores de telemarketing e corretores de seguro desapareçam. Caixas de banco e supermercados podem ir procurando emprego. Mas não é só: advogados, jornalistas, garçons, motoristas de ônibus e professores podem dançar.

A previsão acima, feita em 2013, é de um algoritmo. Até 2033 nossas profissões vão escorrer pelo ralo. Um historiador fica anos garimpando documentos em arquivos cheios de ácaros. Já era. Digitaliza tudo e um algoritmo faz a pesquisa. As máquinas darão o tom, comporão as músicas e nos farão dançar conforme o interesse e o ritmo delas, que será o nosso, pois não podemos negar o que criamos com tanto investimento científico e inteligência. A pergunta que se impõe e pode provocar ranger de dentes é esta: a ciência vai destruir a humanidade?

Especialistas, como o filósofo da ciência Bruno Latour, costumam nos tratar como crianças que precisam de consolo: tudo dará certo, sempre encontramos saídas, se empregos desaparecem, outros surgem, a ciência inventará novas oportunidades para os homens, hoje é melhor que ontem, logo amanhã será melhor do que hoje. Harari e os algoritmos não parecem convencidos disso. Eu ia tentar aprender a tocar um instrumento. Desisti. Não quero ser humilhado por um aplicativo.