Ninguém foge ao seu destino.
Talvez porque o destino seja sempre aquilo que já aconteceu.
Não importa.
A noção de destino é mesmo circular: se aconteceu é porque deveria acontecer. Nada mais fácil do que prever o destino de alguém. Basta ter paciência para esperar que as coisas aconteçam. Meu amigo Jean Baudrillard, grande pensador francês que morreu em março de 2007, adorava contar a história de uma viagem a Samarcande. Na praça de uma cidade, em presença do rei, um capitão vê a morte lhe acenar. Desesperado, o homem avisa o rei de que vai fugir para Samarcande. E dá no pé. O rei, do alto da sua autoridade incontestável, interpela a morte, que lhe responde: “Eu não queria assustá-lo. Só pretendia dizer-lhe que temos um encontro marcado esta noite em Samarcande”.
Eu me imagino a cada dia falando aos amigos: amanhã tenho de ir a Samarcande. Você já foi a Samarcande? Conhece alguém que tenha vivido uma grande paixão em Samarcande? Samarcande é a capital da região de mesmo nome no Uzbequistão, situada culturalmente entre o mundo persa e o mundo turco. Muita gente importante já foi até lá para fazer negócios, turismo ou esquentar os músculos. Exemplos: Gengis Khan, Tamarlão, Alexandre, o Grande, Omar Khayam, Elvis Presley e Paris Hilton. Tamerlão gostou tanto que fez da cidade a sua capital. O pessoal não guardou boas lembranças de Gengis Khan. Ele destruiu tudo o que viu pela frente. Marco Polo não foi a Samarcande.
Nem João Paulo II. Marco Polo errou o caminho. O papa estava cansado.
Conta-se que o “célebre peregrino chinês Xuanzang”, do qual nunca tínhamos ouvido falar, passou, por volta de 631, em Samarcande, a caminho da Índia. Esse andarilho era uma espécie de cronista que tentava algo extraordinário: compreender a espécie humana. Ele teria dito, depois de assistir a uma briga entre dois homens, uma frase que se tornaria ainda mais célebre do que ele mesmo: os homens têm cabeça oca. O poeta metafísico T.S. Eliot teria se inspirado nessa reflexão pertinente e judiciosa a respeito da humanidade para compor o seu lindo poema “Os homens ocos”: “Nós somos os homens ocos/Os homens empalhados/Uns nos outros amparados/Os elmos cheios de nada/Ai de nós!”.
Xuanzang, depois de descrever minuciosamente as grandezas de Samarcande, a coragem do rei, a organização do seu exército e a honestidade da população em geral, disse o seguinte a respeito dos homens do lugar: “São homens de grande valor, que vêem na morte um reencontro com os pais, e que nenhum inimigo pode vencer em combate”. Salvo Gengis Khan. Morrer nunca foi um problema para certas culturas. Especialmente morrer por uma causa, pelo destino. A vida só tinha sentido se valesse a pena morrer por ela.
Ir a Samarcande tornou-se o equivalente de ir ao encontro do seu destino. Samarcande quer dizer “lugar de encontro” ou “lugar de conflito”. Ao retornar ao jornalismo diário e prestes a embarcar para uma viagem à China, eu me sentia chegando a Samarcande. Pensei em dar um pulo a Samarcande para render homenagem ao espírito de Jean Baudrillard. Iria sem encontro marcado. Samarcande, disse Omar Khayamm, pode estar em qualquer lugar. Voltei a pensar nisso tudo, faz alguns dias, quando morreu uma tia minha, uma mulher que praticamente não saiu do seu “bled”, seu rincão, seu lugar, um lugar chamado Florentina, a sua Samarcande. Passei minhas férias da infância na casa dela. Ficava no fundo de um campo. Quase ninguém passava por lá. Mas ele encerava o chão da sala, onde ninguém entrava, todo dia. Deixava a casa brilhando.
Amava o seu lugar.
Cuidava dele.
Fazia-o pelo seu prazer. E pelo amor aos seus.
Nunca fugiu de Samarcande.
Mário Fernandes vive fugindo de Samarcande.
É o seu destino.