Juremir Machado da Silva

Mãe Coragem, bairrismo, Todorov e arbitragem

Nunca aceitei a ideia de que somos mais bairristas que qualquer outro Estado brasileiro.

Somos tão bairristas quanto os baianos, os cariocas e os paulistas.

Já disse muitas vezes que o bairrismo paulista se expressa sob a pretensão ao cosmopolitismo.

No pegar para capar, é província mesmo: Luís Fabiano contra Leandro Damião.

A Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo não são jornais nacionais.

Ainda vão nos castigar muito por causa da revolução de 1930 e de Getúlio, que derrubou os seus barões do café, interrompeu a fraude eleitoral que os mantinha no poder, livrou-nos da monocultura e, de quebra, deu-lhes a USP.

Até mesmo o Jornal Nacional, da Rede Globo, é um porta-voz dos imaginários carioca e paulista.

Cada vez que denunciamos uma roubalheira paulista ou carioca, somos acusados de bairrismo.

Foi assim em 2005, quando a CBF virou a mesa do campeonato brasileiro para privilegiar o Corinthians.

O bairrismo baiano é explícito. Ou nem é bairrismo.

Os cariocas são tão bairristas que ainda usam o singular: carioca tem humor, carioca não gosta de sinal fechado, carioca não gosta de chuva, como se existisse uma "cariocidade", um tipo-ideal, uma identidade monolítica, um só carioca.

O Rio Grande do Sul tem seus arroubos.

Pensei nisso, ontem, no São Pedro, vendo "Mãe Coragem e seus filhos", montagem da Cia Berliner Ensemble, fundada por Bertold Brecht, em 1949. A peça, com soberba interpretação de Carmen Maja-Antoni, veio ao Brasil na programação do já consagrado Porto Alegre Em cena, da Secretaria Municipal da Cultura, coordenado pelo incontornável Luciano Alabarse, diretor de teatro, agitador cultural, gestor, criador, etc. Berliner Ensemble é um mito, o teatro com aura e atmosfera.

Nesta mesma semana, esteve em Porto Alegre Tzvetan Todorov, um dos grandes inlectuais europeus das últimas décadas.

Falou no Fronteiras de Pensamento, o maior ciclo de palestras da história brasileira, nascido e criado em Porto Alegre por inspiração do empresário Luis Fernando Cirne Lima, com execução de outro incontornável, Fernando Schuler, e com a colaboração modesta deste que escreve estas linhas. Depois, exportado para São Paulo e Salvador.

De shows musicais nem vale falar.

Porto Alegre faz parte do circuito principal.

Em dezembro, teremos Madonna.

"Mãe Coragem", drama ambientado na Guerra dos 30 anos (1618-1648), esbanja atualidade: sob a cobertura do conflito religioso, devastação, irracionalidade, estupidez, desespero, solidão, burrices nacionais e uma mulher, contra tudo e todos, perdendo seus filhos, seus amores, suas posses, mas jamais a sua dignidade e o seu senso de humor.

Plasticamente, com direito a chuva e neve, irretocável.

Saí do teatro de alma lavada.

Sem qualquer bairrismo, neste mês de setembro, fiquei ufanista. Lembrei-me de uma frase singular para resumir este meu estado de alma insuflado por Brecht, Berliner Ensemble, Todorov e "Mãe coragem": que sirvam nossas façanhas de modelo...

Aos cariocas e paulistas.

Ao menos.

Não por fazermos mais do que eles.

Para que saibam que têm sotaque e periferia.