Mói a planta
A distância entre as gerações se mede pela riqueza da linguagem de cada uma. Mas não é que as gerações mais novas tenham necessariamente um vocabulário mais restrito ou empobrecido. Nós, velhos – a velhice começa, do ponto de vista dos mais jovens, aos 31 anos de idade –, temos a tendência a supervalorizar nossos feitos e a desvalorizar as façanhas dos nossos sucessores. O jornalista e escritor Ruy Castro, há pouco mais de um mês, em Porto Alegre, fez o tradicional discurso do velho nostálgico: “A música acabou. Agora só tem barulho”. Algo assim. Castro se acha a última bolachinha do pacote. Era mais ou menos isso que diziam os mais velhos quando surgiram o rock, a Jovem Guarda e talvez até a Bossa Nova. Não é difícil de entender o Ruy. Há novos ruídos ensurdecedores por aí.
– Que barulho é esse, filho?
– É música, pai.
– Música para mim era Frank Pourcel e orquestra.
– Escuta Marília Mendonça, vai.
– Nunca ouvi falar.
– Ouviu, sim. Passou domingo até naquele programa de velho.
– Que programa de velho?
– O Fantástico.
A criatividade na linguagem coloquial, porém, continua viva. Tão viva que exige dicionário para ser decodificada. Os jovens também sentem a mesma estranheza quando veem certos filmes de época – entre os quais já podem ser inscritos clássicos gaúchos como “Verdes anos” ou brasileiros como “Eu sei que vou te amar”, de Arnaldo Jabor. Há filmes e livros interessantes nos quais os personagens falam assim:
– Que linda pequena!
– Um broto, morou?
– Bicho, que mina!
– Um avião, camarada!
– Saquei.
Não faz muito era atualíssimo dizer “que mico”. Hoje, falar que mico é um mico. Não faz muito, numa esquina central de Porto Alegre, um senhor de terno e gravata criticava duramente essa gurizada que anda de boné com a aba virada para trás e roupas muito largas:
– Podem me chamar de velho, mas isso é um horror, o fim de tudo.
– Horror era quando a gente andava de pantalona varrendo o chão, lembra?, cabelos compridos até a cintura, barba de Urtigão...
– Urtigão?
– Aquele personagem de história em quadrinhos.
– Mas tu és velho, hein!?
– É verdade. Já sou coroa.
– Coroa? Que bagulho é esse, cara?
– Cara ou coroa, manja?
Cada geração precisa inventar a sua linguagem. O que a geração atual chama de invenção, a anterior rotula de destruição. Os pobres dos velhos ficam correndo atrás. Pagam mico – sou velho – a cada vez.
– Vaza, moleque, vai.
– Vaza é coisa de velho, pai.
– Mas eu li isso ainda ontem num e-mail.
– E-mail também é coisa de velho, pai. Quase como aquilo que você falou outro dia, lembra? Como era mesmo o nome? Ah, sei, um tal fax.
Professor também não consegue acompanhar. Não adianta andar de blazer e tênis para mostrar juventude. Quando eu era aluno, professor era “profe”. Hoje, é “sor”. Professor jovem quer parecer mais velho. Professor velho quer parecer mais jovem. A linguagem fala. Denuncia.
– Vou passar a matéria no meu micro, patota.
– Que é parada é essa, sor?
– Matéria ou patota?
– Não, micro!
No meu tempo – expressão de velho –, a gente estudava esta frase: “A palavra cão não morde”. Agora, a moda – que virou fashion – é analisar a pegada de cada palavra. Se a palavra não morde, cala.
– Eu já disse, galera. Se perderem a prova, a casa cai.
– Mói a planta, Sor!
Até a palavra golpe mudou. Agora é impeachment.