Maffesoli é doutor honoris causa da La Salle
capa

Maffesoli é doutor honoris causa da La Salle

Sociólogo francês é homenageado em Canoas

publicidade

Em 2009, Michel Maffesoli recebeu o título de Doutor Honoris Causa da PUCRS. Ontem, ele foi feito Doutor Honoris Causa da Universidade La Salle, em Canoas. Eu não me canso de repetir: Maffesoli é o pensador que melhor entende e desvenda o imaginário da nossa época. O que ele diz? Que somos mais comandados pelas nossas emoções do que pela razão. O fanatismo dos torcedores de futebol é uma prova disso. Adianta criticar? Não. A sociedade é o que é, não aquilo que intelectuais desejam que ela seja. Criticar o racionalismo não significa abandonar a razão sensível.

      Como anda na contramão do racionalismo dominante, Maffesoli é atacado pelos donos do campo sociológico. Quer entender o que faz tanta gente participar de CTGs e de acampamentos farroupilhas? Leia Maffesoli. Evidentemente que ele não diz uma palavra sobre isso. Dá o fundamento sociológico: lógica do estar-junto, do estar-com, do compartilhamento, cimento social, vontade de pertencer a alguma coisa forte, vibração compartilhada, tribalismo, identificação, troca emocional, ritualização de sentimentos, mitologização do cotidiano com ajuda do passado, produção e reprodução de laço social, vínculo orgânico, comunhão de linguagem, valores, estética, vocabulário, mitos, lendas, roupas, músicas, gestos.

      Quer entender o que leva torcedores a viverem para um clube de futebol? Desejo de pertencimento a uma comunidade, prazer no êxtase compartilhado, satisfação na convivência tribal, aconchego na temperatura emocional da convivência, ainda que virtual, identificação, relacionamento. Para Maffesoli, teórico da pós-modernidade, a utopia de um mundo totalmente racionalizado fracassou. Seres humanos produzem incessantemente mitos e imaginários. Buscam freneticamente a relação social que aquece e emociona. Escolhem mais emocionalmente do que pela razão. Precisam do lúdico, do jogo e de rituais para encontrar sentidos.

      Sempre foi assim? Sempre. A diferença estaria no fato de que em muitos aspectos a identidade foi substituída pela identificação. As pessoas saltam de uma tribo para outra sem precisar dar explicações. Salvo no futebol. Estamos num tempo hiperindividualista? Para Maffesoli, não. Segundo ele, estamos no tempo das tribos, passageiras ou nem tanto, em que se quer viver intensamente aqui e agora, o possível. A modernidade prometia um futuro perfeito que se afastava como o horizonte. A massa fingia acreditar e tratava de aproveitar freneticamente o imediato. No seu mais recente livro, “O tesouro escondido”, Maffesoli mostra que instituições como a maçonaria funcionam na base tribal da irmandade.

      Três coisas repetem-se ao longo da história: a necessidade de ocupar o tempo, o desejo de relação e compartilhamento de emoções, a necessidade de rituais de comunhão social. O homem não é da produção nem do consumo. Também é da produção e do consumo. Antes de tudo, é do jogo, da festa, da crença, das emoções, dos mitos, dos desejos, das intuições, das religiões, das paixões e dos mistérios. Só o homem produz imaginários. Quando isso não funciona, o ser humano adoece. O sentido para ele está no outro.

*

Na foto de Luciele Rocha de Oliveira, Michel Maffesoli e o reitor Paulo Fossatti da Universidade La Salle.