Juremir Machado da Silva

Mais Maquiavel, menos Marx?

 Fui participar de um evento organizado pelo Sinpro, o Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul. Várias falas me chamaram a atenção. Numa delas, o cientista político Aldo Fornazieri, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, soltou uma provocação: “Precisamos de menos Marx e mais Maquiavel. Marx não entende política. Quem entende é Maquiavel”. Ele explicou que para o autor de “O príncipe” não se faz política sem força. Benedito Tadeu César depois lembrou que na democracia força é apoio popular.

Muito se discute se Maquiavel era maquiavélico, ou seja, cínico, ou se é interpretado incorretamente. Estou com Nigel Warburton. Para Maquiavel, segundo Warburton, em política, “às vezes é melhor mentir, quebrar promessas e até matar inimigos”. O importante seria a “virtù”, a firmeza, a pegada. Não gosto de Maquiavel. Também não gosto de Nietzsche. Por mais que me digam que elas não são o que as más línguas dizem que são, quando os leio encontro exatamente o que as más línguas dizem deles: elogio da esperteza e do mais forte. Maquiavel achava-se realista. “Talvez o bom comportamento não sirva para líderes”, conclui Warburton, resumindo o pensamento de Maquiavel. Neste caso, estamos bem servidos. Eu sou ingênuo. Acredito em transparência e honestidade.

O cientista político Benedito Tadeu César, professor aposentado da Ufrgs, citou dados sobre o Congresso Nacional compilados por um colega dele: 9% de representantes mulheres num país 51% feminino; 3% de negros e pardos numa nação de 60% não-brancos; 30% de ruralistas deputados e senadores apesar de eles não passarem de 1% no quadro populacional brasileiro. Quem explica isso? Maquiavel ou Marx? Ou ambos? O Sinpro lançou um site de “conscientização sobre o processo eleitoral”. Informa como votaram os deputados e senadores gaúchos na reforma trabalhista, na lei da terceirização, na chamada “lei do veneno”, que torna mais fácil o uso de agrotóxicos, e na PEC de congelamento de gastos. A ideia é que se deve saber em que se vota.

Eu queria um mundo em que Marx e Maquiavel não tivessem lugar. Infelizmente os dois foram muitos bons de diagnóstico. Disseram como o mundo funciona. Foram ruins de prognósticos. O mundo emanado das ideias de Marx não empolgou, embora os marxistas aleguem que houve deturpação e que o existente não valeu. Se o capitalismo enfatiza a liberdade sobre a igualdade, o comunismo de fato apenas inverteu a equação. Maquiavel foi mais pragmático. Apenas indicou que o poder é uma guerra por todos os meios. Mais difícil do que conquistá-lo, é mantê-lo. O PT foi maquiavélico ao chegar ao poder numa aliança improvável de classes? O antipetismo foi maquiavélico ao usar a corrupção e as pedaladas como pretextos para tirar o PT do poder?

Maquiavel aprovou quando César Bórgia mandou esquartejar seu capanga Ramiro D’Orco. Não precisava mais dele, que se tornara incômodo depois de ter assassinado tanta gente. O mundo mudou: o esquartejamento agora se dá por outros meios. Os fins são os mesmos.