Mais razões para ler Dantec
Dantec, o inimigo público
Maurice Dantec, autor de “Raízes do mal” (Sulina), que traduzi , é um polemista nato.
Os seus inimigos dizem que ele é de extrema direita.
Ele se diz católico, monarquista, sionista e inimigo do obscurantismo islâmico.
É a favor da pena de morte e apoiou as aventuras de Bush no Iraque.
“Raízes do mal” já vendeu mais de meio milhão de exemplares na Europa.
Segundo a revista francesa “L’Express”, trata-se de uma “obra-prima” por descrever “o Homem em todo o seu esplendor e em todo o seu horror”.
O crítico Richard Pinhas afirmou que “Raízes do Mal” é o melhor romance de todos os tempos sobre a paranóia.
Romance policial e de ficção científica, “Raízes do mal” conta a história de um grupo de serial-killers que atua e mata através de uma rede de computadores.
Matar para eles é um jogo.
Um game.
Melhor romance da era da cibercultura, “Raízes do mal” esbanja lirismo, violência e cultura científica transformada em texto inteligível e irônico.
Os investigadores são especialistas em ciências cognitivas, uma linda russa, um velho professor francês e um jovem pesquisador que só pensa em levar a russa para a cama nem que para isso tenha de agarrar a unha os serial-killers que tanto fascinam a moça.
Maurice Dantec vive isolado no Canadá. Louis-Ferdinand Céline, o melhor escritor francês do século XX, depois de Marcel Proust, era um médico racista, simpatizante do nazismo e repugnante. Um sujeito escroto em tempo integral. A obra dele é genial e revolucionária. Salvo seus panfletos racistas, que continuam proibidos na França. Ganhei um de aniversário. É insuportável e nojento. Dá para vomitar.
A ficção de Céline, no entanto, sempre foi maravilhosa. Acima de qualquer ideologia.
Dantec não é racista. É exótico, excêntrico, misógino.
As ideias dele não me convencem. A sua ficção me deslumbra.
O jornal francês Libération, de centro esquerda, teceu elogios ditirâmbicos a “Raízes do mal”, um livro capaz de misturar teoria do caos, hackers, psiquiatria, fanatismo religioso, desespero, solidão, vazio existencial e amor.
Há quem sustente que “Raízes do mal” é tão inovador que teria criado um novo gênero literário.
Jean Baudrillard, o gênio dos paradoxos, considerava “Raízes do mal” uma das mais inteligentes expressões da estupidez humana.
A literatura de Maurice Dantec tem cheiro de sangue e de fezes. Mas as suas frases podem ser sublimes.
Dantec é um anarquista. É isso que lhe permite desvendar o mundo contemporâneo com uma fúria paradoxalmente serena e devastadora.
Se Dantec não tem a ironia de Michel Houellebecq, enfia o dedo até o fundo da ferida. Tchum!
Pode-se ver a literatura de Dantec no cinema em “Missão Babilônia”. A revista “Lire” garante que poucos sabem tão bem quanto ele misturar ação, multiplicar histórias e aliar poesia, realismo, futurismo e fantástico.
Chega de literatura morna. Basta de asneiras sobre a literatura francesa. O escritor norte-americano Norman Spinrad dá o tom: "Dantec is a pure-hard-core revolutionary, armed with impressive erudition and intelligence, who remembers to fuck around. His novels are both political and metaphysical, with a strong knowledge of what happening in the world". Entenderam?