Juremir Machado da Silva

Mal dito (4)

Mal dito (4)

Paulo Renato Souza é gaúcho. Talvez seja a sua grande qualidade. Ele se diz professor. Mas, pelo que se pode saber, sempre preferiu gabinetes a salas de aula. Questão de ar-condicionado. Foi ministro da Educação de FHC. É secretário da Educação de José Serra, em São Paulo. Ou seja, um tucano sempre abrigado em ninho privilegiado. Paulo Renato é um economista medíocre, um palestrante enfadonho, um político sem carisma e um tecnocrata elitista. Nesta semana, a revista Veja, com seu tradicional ideologismo obsceno, traz uma entrevista com Paulo Renato. No seu papel de modernizador engravatado, ele repete o mantra tucano que a Veja adora: só a meritocracia vai melhorar as escolas e o Brasil. Sindicatos e professores entravam esse progresso por excesso de corporativismo. Essa conversa fiada convence.

Convence os convencidos. Fico pasmo ao ver como um economista pode ser tão ingênuo quanto aos méritos da meritocracia. Ou é má-fé? Não, não, é apenas radicalismo ideológico. A meritocracia brasileira é antimeritocrática. Não passa de um sistema de reprodução de desigualdades históricas. Consagra o consagrado. Confirma o confirmado. Valida o consolidado. Legitima o facto consumado, dá aos filhos dos donos do poder o poder que os pais herdaram dos seus pais. Serve para manter a turma dos camarotes nos seus berços esplêndidos. Atualiza as capitanias hereditárias do saber. Que mérito pode haver em ganhar uma competição em que os candidatos não possuem as mesmas condições de preparação? Paulo Renato parece imaginar que condições iguais se resumem a fazer a mesma prova no mesmo dia, na mesma hora e na mesma sala.

Sem condições equivalentes ou semelhantes de preparação ao longo do percurso escolar, definitivamente, não há a menor possibilidade de estabelecer um regime meritocrático. É puro sofisma. Uma corrida em que o vencedor larga muito metros na frente e bate um oponente, como se diz na linguagem do futebol, “descontado”. Uma Fórmula 1 em que o campeão larga na pole, e o adversário, num carro menos competitivo, sai dos boxes duas voltas depois. Nessas condições, em algum momento, em função de algum acidente de percurso, o outsider até poderá chegar ao podium. Mas será sempre exceção. E não levará o título. Por trás do discurso ideológico de Paulo Renato se esconde a velha astúcia liberal segundo a qual um indivíduo motivado e inteligente vencerá as suas dificuldades, ultrapassará todos os obstáculos e triunfará. Nessa guerra, o indivíduo vence a sociedade.

Na retórica pseudomoderna de Paulo Renato Souza, os professores são preguiçosos, organizados em sindicatos partidarizados e defensores do menor esforço, os recursos públicos são dilapidados, não há metas, nem cobrança de resultados, e um marxismo vulgar justifica o atraso. Diz Paulo Renato: “Às universidades pretendem formar professores, mas passam ao largo da prática da sala de aula. No lugar de ensinarem didática, as faculdades de pedagogia optam por se dedicar a questões mais teóricas. Acabam se perdendo em debates sobre o sistema capitalista cujo ideário predominante não passa de um marxismo de segunda ou terceira categoria. O que se discute hoje nessas faculdades está muito distante de qualquer ideia que seja cientificamente aceita, mesmo dentro da própria ideologia marxista. É uma situação difícil de mudar. A resistência vem de universidades como USP e Unicamp, as maiores do país”. Como se vê, deve fazer muito tempo que Paulo Renato não bota os pés numa sala de aula.

Esse papo modernoso convence os adeptos dos darwinismo social. Os tucanos deviam se convencer de que são falcões. Ou chacais. As sociedades não são feitas só de melhores. A educação deve ser uma oportunidade de melhoria para todos. Como todo militante altamente ideologizado, Paulo Renato acha que sua postura é pragmática, portanto, não ideológica. Coitado. Sob a aparência de moderado, esconde-se um fundamentalista. Um xiita do mérito puro a ser extraído de condições de profunda desigualdade. Numa competição dessas, a vitória de um azarão só pode significar uma coisa: a descoberta de um gênio. O único mérito de Paulo Renato até hoje é o de saber saltar de um cargo para outro, sob as asas tucanas, sem jamais ter tido uma só ideia original.