Malas de carnaval
Último dia de férias na Bahia.
Antes de voltar, hora de dar um pulo a Santa Cruz Cabrália e Coroa Vermelha, onde os portugueses botaram o pé no Brasil. Depois, pé no avião e casa, casinha.
Recebi muitos e-mails de malas durante as férias.
Tem mala de esquerda e mala de direita. Mala que odeia lazer, papo de bar, descontração, ficção, novela, caipirinha, a Bahia, o Rio de Janeiro, gente pelada, sol, areia, piscina, biquíni, tanga, fio-dental, mulher gostosa, homem sarado, bloco, arraial e mais, muito mais.
Malas de direita e de esquerda parecem iguais.
Usam o mesmo discurso:
“O Brasil está parado durante o carnaval e ninguém faz nada, que horror, nunca se roubou tanto neste país”.
Ou:
“O que está fazendo o cronista que só fala de carnaval, de festas, de praias e não trata da corrupção?”
A direita adora indignações falsas. Pretende que a corrupção foi inventada no governo atual. Fica nessa de “nunca se roubou tanto”. Conversa fiada. Lero-lero.
Papo reacionário.
Sempre se roubou como agora no Brasil.
Ou, visto o mensalão do DEM e a quadrilha do Arruda, nunca a direita roubou tanto como agora no Brasil.
Tem gente que não dança, não vai à praia, não vê futebol, não transa, não se dá com o lobo mau, não ouve rebolation, nada, só quer sermões contra a corrupção.
São os fãs do Boris inimigo dos lixeiros Casoy:
“Isto é vergonha!”
“O Brasil precisa ser passado a limpo.”
Todo dia.
Feito um Datena.
Estilo moral de cueca.
Cueca na moral.
“Isto é uma vergonha!”
“Aonde vamos parar?”
“Estamos pela hora da morte.”
“Não temos mais valores, que horror!”
Aí o leitor, sem mexer uma palha, sente-se renovado, imaginando-se um Robespierre ou um Danton.
Danton era corrupto.
Robespierre tinha suas covardias.
Luis XVI foi condenado a morte por um voto: 361 a 360.
Arruda já era.
Paulo Otávio vai pelo mesmo caminho.
Outros virão.
E ficarão.
Como sempre.
Afinal, compreendem?, percebem o absurdo?, nunca se roubou tanto como sempre neste país.
Mas carnaval é carnaval.
Praia é praia.
E mala é mala.
Desde que os portugueses chegaram nesta triste Santa Cruz Cabrália, neste lugar que a turma nativa chamava de Pindorama, que é assim. As malas de esquerda querem falar de eleições, querem argumentos em favor do Plano Nacional de Direitos Humanos, querem loas para Dona Dilma. As malas de direita querem a artilharia baixa, pesada, rasteira e nojenta: os terroristas querem tomar de vez o poder. Tudo isso, amigos, durante o carnaval.
Eu era cronista maldito, “enfant terrible”.
Querem que eu faça o sermão dominical.
Durante o carnaval.
Fui!
Mas estou voltando.