Juremir Machado da Silva

Malas telefônicas

Malas telefônicas

Na minha utopia negativa, o mundo se transforma num imenso bagageiro. Na primeira prateleira, ficam os chatos que acham ironia uma coisa rabugenta. É a geração Pânico, CQC, Casseta & Planeta e Zorra Total. Uma turma que só ri de besteirol. Na segunda prateleira, em posição de destaque, ficam os operadores de telemarketing de companhias telefônicas ou de cartão de crédito. São aquelas malas que falam “vamos estar lhe oferecendo” e “vamos estar enviando para a sua casa”. É o pessoal do “gerúndio paulista”. Como foi que esse negócio se espalhou tão rapidamente? Há dez anos, ninguém falava “vamos estar transferindo a sua ligação”. Mistério. Se eu tivesse tempo, ia pesquisar coisas que me fascinam. Por exemplo: em que momento os narradores de futebol pararam de falar em descontos e passaram a falar em “acréscimos”?
Não posso me perder. O meu alvo hoje são as malas telefônicas. O sujeito liga para a casa da gente e pergunta: “Quem está falando?” Respondemos meio desconfiados. A figura prossegue: “O senhor é o titular da linha?” Dizemos, cada vez mais contrariados, que sim. A mala, que até ali nunca tinha ouvido nosso nome na vida, dispara: “O seu nome foi escolhido para estar recebendo o benefício especial do mês...” Que safadeza! Primeiro a mala sem alça faz um interrogatório. Depois, na maior cara de pau, diz que havíamos sido escolhidos para ganhar algo de que não precisamos. Cheguei a uma conclusão inapelável: ninguém enrola mais do que operador de telemarketing de companhia de telefônica. É embromação pura, enrolation, conversa fiada, papo de vigário para enganar os incautos. É isso: odeio operadores de telemarketing de companhia telefônica. São todos malas.
Agora vou estar transferindo meu ódio para os inventores de eufemismos: melhoridade em lugar de velhice é conversa de operador de telemarketing de companhia telefônica. Inventaram também o “risco de morte”. É coisa de taipa, de gente que não consegue enxergar um termo implícito a menos de um palmo do nariz: risco de (perder a) vida. Estou avisando os operadores de telemarketing de companhias telefônicas: cuidado comigo. Parem de me ligar. Estou em ponto de bala. Esqueçam o meu número. Eu tenho um credo: ninguém liga para oferecer um produto se não for ganhar algo com isso. Não me venham com essa história de que é só para “fidelizar” o cliente. De qualquer maneira, não quero ser fiel a empresa alguma. Sou um anarquista, um libertário, um infiel convicto.
Já pensei um criar uma organização terrorista, o COCOTEMACT, Comando de Caça aos Operadores de Telemarketing de Companhia Telefônica. Nosso herói seria o capitão Nascimento, o de Tropa de Elite 1. Meu nome de guerra seria Carlos, o chacal do telemarqueteiros de companhia telefônica. Ouvi dizer que em certos países nórdicos o sujeito que falar “vamos estar transferindo a sua ligação” é condenado a ouvir sertanejo universitário brasileiro até o final da vida. Talvez eu crie uma ONG para salvar os operadores de telemarketing de companhia telefônica da tortura a que são submetidos. Não é vida passar o dia enchendo o saco dos outros. Ufa! Desabafei.