Juremir Machado da Silva

Mandela, nosso ídolo

Escrevi Mandela, meu ídolo. Mas uma espécie de pudor me levou a reconsiderar. Era muita arrogância. Mandela é o nosso ídolo, o ídolo de todos que acreditam em respeito à diferença, tolerância e dignidade. O que sempre me impressionou nele foi o óbvio: sua personalidade mais do que humana, sobre-humana, sobrenatural, inacreditável. Quem não cederia, no lugar dele, depois de 27 anos nas masmorras de um regime hediondo, ao ressentimento, ao ódio, ao desejo de vingança e à intolerância? Quem não se entregaria à vontade de esmagar o inimigo em vez de buscar a reconciliação, o entendimento e a superação?

Li uma excelente biografia, “Mandela, o homem, a história e o mito” (L&PM), de Elleke Boehmer. Mandela, como diz o clichê, aparece de corpo inteiro: um homem em transformação ao longo da vida. Em mutação sempre para melhor. O “apartheid” da África do Sul foi um dos regimes mais estúpidos da história da humanidade. Dificilmente um país inventará algo mais repugnante. Mandela foi uma das vítimas especiais desse sistema perverso de opressão milimetricamente planejado e executado em nome da superioridade racial fictícia. A injustiça e a violência sofrida, porém, não o tornaram amargo nem infeliz. Aprendeu uma doçura inumana. Tornou-se um praticante eficaz da mudança pela negociação e pela paz. Tudo isso se sabe. Tudo isso nunca deixa de impressionar.

Que homem foi Mandela? Que monstro de complexidade! Que singeleza na sofisticação da sua personalidade. Um caminhante que, parafraseando o poeta Antonio Machado, fez seu caminho na caminhada e transformou o percurso em lição histórica e universal de vida. Nunca fui adepto da ideia de ter ídolos. Acho quem precisa de modelos é passarela e cabide. A exceção é Mandela. Ele venceu inclusive os perigos do poder. Foi presidente da África do Sul e não se tornou menor pelas armadilhas do realismo político. Saiu mais forte, mais denso, irreal. Em literatura, como personagem de ficção, Mandela seria considerado inverossímil, fantasia de algum autor em busca de um ser humano impossível, quase perfeito, capaz de praticar uma habilidade absurda de perdoar e amar.

O racismo é uma das coisas mais nojentas que se pode conhecer. Mandela representou a luta contra essa deformação das relações entre os homens em todas as suas possibilidades e facetas. O sorriso cândido do já velho Mandela é algo que faz pensar. Como conseguiu resistir ao ceticismo, à descrença, à desesperança, à desilusão, ao horror humano? Algumas das suas frases mais célebres desafiam nossa capacidade de interpretação: “Não há nada como um longo tempo na prisão para dar concentração à mente e levá-lo a uma avaliação mais ponderada das realidades da sociedade”. Claro que isso só vale para um espírito superior como o dele. Nelson Mandela, ou apenas Perdão. Um perdão sorridente.

Não será fácil dizer algo original sobre Mandela.

Oceanos de tinta serão gastos para homenageá-lo nestes dias. Nada fará diferença.

Ele escreveu de tal forma a sua própria história que não deixou nem sequer espaço para notas de rodapé de comentaristas. A crença na humanidade se refaz com homens assim. No meu imaginário infantil, Mandela é agora o verdadeiro espírito que anda.