Ontem, se vivo fosse, Nelson Mandela faria cem anos de idade. Nesta minha vida de observador dos acontecimentos do mundo não percebi personagem mais interessante do que ele. Se voltasse a ser criança e me perguntassem o que gostaria de ser quando crescesse, não hesitaria, não diria Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar ou um youtuber qualquer:
– Mandela – eu cravaria.
Não gostaria de passar 27 anos na cadeia. Mas adoraria ter a sua capacidade de perdoar. Mandela foi a prova de que leis podem ser injustas, monstruosas e canalhas. Foi também a prova viva de que, em certos casos, revoltar-se contra a lei é um imperativo moral categórico. A África do Sul instituiu oficialmente o mais infame dos regimes, o do apartheid. Como foi possível, na segunda metade do século XX, ainda ontem, ter separado brancos e negros em categorias de superioridade e inferioridade diante dos olhos apáticos do mundo?
Mandela venceu. Quando chegou ao poder, perdoou em nome do futuro. Quem não teria sido arrastado pelo ressentimento, pelo ódio e pelo desejo de, ao menos, um pouco de vingança? Como foi racista esse século XX que acabou faz menos de vinte anos! Nazismo, apartheid sul-africano, segregação racial nos Estados Unidos, discriminação em países como o Brasil sob a cínica tese da democracia racial, um pouco de tudo por toda parte. A seleção francesa de futebol, agora louvada por ser multiétnica, até pouco tempo queria impor limites para jogadores que não fossem franceses “de souche”, da gema, brancos. Afirmar que é uma equipe africana virou elogio. Os jogadores negros, nascidos na França, eram discriminados antes de fama, assim como são jovens negros anônimos, sob o rótulo justamente de africanos.
O racismo continua correndo solto pelo mundo. Mandela paira sobre todos como uma generosa ideia de superação e de convivência. Estivesse na África do Sul e fiquei horrorizado com a miséria que devasta principalmente os negros. Cometei com um viajante. Ele disse:
– Como no Brasil.
Caí do cavalo. Uma vez, fui ao Marrocos. Fiquei extasiado com a beleza das montanhas e do deserto. Amei cidades como Ouarzazate. Senti um clima quase místico em tudo aquilo. Mas voltei a Paris chocado com a pobreza. Comentei com meus amigos franceses. Todos me disseram:
– É como nos sentimos no Brasil.
A figura de Mandela ganhou ares de mito. Como foi possível um homem tão perseguido e injustiçado ter ficado tão sábio e generoso em condições que normalmente só produziriam mágoa e violência? A África do Sul não se tornou um paraíso sem racismo. O sonho de Mandela ainda não se completou. Os seres humanos ainda surpreendem. Os cínicos acham que tudo se repete. Pensam que já viram tudo. Há quem acredite só nas leis do mercado. Mandela derrubou clichês de todo tipo: mostrou que a individualidade e a vontade pessoal contam muito. Provou que a vida não é movida apenas por estruturas impessoais e implacáveis. Fez-se exemplo sem narcisismo nem autopromoção. Errou como todo mundo. Os seus acertos, contudo, não param de se mostrar enormes. Meu único ídolo.